A cor do dinheiro, por que nunca vejo?

Joel Fernandes 09/07/2017
Joel Fernandes 09/07/2017

Eis, a seguir, um relato de um atendimento típico em consultorias de pequenas empresas, baseado em fatos.

“Hoje atendi um cliente jovem e inteligente, formado em contabilidade, desempregado, pois pediu demissão do escritório no qual trabalhava, porque via o tempo passar eternamente sem que a empresa crescesse e menos ainda os empregados. Seu nome era Arthur. Era jovem, alto, de olhos pretos, usava camisa preta fora das calças e tinha cabelos longos e encaracolados. Ficava sério a maioria do tempo, mas quando se sentia fragilizado, disfarçava, com um sorriso maroto.

Sentou-se em minha frente e eu o cumprimentei.

– Bom dia, eu sou o Valente, seja bem-vindo, em que posso lhe ajudar?

– Eu quero abrir um negócio, mas não tenho a menor ideia do que quero empreender, talvez comprar uma franquia ou desenvolver algo por conta.

– Por que você quer abrir uma empresa? O que o entusiasma? Qual é a sua motivação para empreender?

– É que não quero mais trabalhar para ninguém. Desejo ser dono de meu próprio nariz. Além do mais, modéstia à parte, acho que sou inteligente, tenho tempo sobrando, pois sou sozinho, não tenho namorada, não tenho vida social e assim posso me dedicar totalmente ao negócio. É só você dizer qual o negócio que eu devo abrir que minha vida financeira estará resolvida.

Esta era sua ilusão (pensou a Ane, que acompanhava o atendimento).

– Está bem. Antes de avançarmos na conversa, deixe-me lhe perguntar uma coisa. Você pode, por favor, responder qual é o próximo número da seguinte série de números: 1, 3, 5, 7, 9, XX.

– 11 – respondeu com um ar de vitória.

– Muito bem, você acertou. E qual é o próximo número desta outra série de números: 1, 3, 9, 27, 81, XX.

A Ane observou ele pensar, pensar, revirar os olhos, pensar de novo, desistir de responder e perguntar sorrindo:

– Afinal, qual é a razão deste teste?

– Este teste mostra o quanto você está preparado para empreender. Vou lhe contar um segredo. Vou revelar para você as respostas de uma pesquisa internacional que inclui a seguinte pergunta: “você acha que está preparado para tocar um negócio por conta própria?” Em países de economia intermediária, como o Brasil, a maioria dos entrevistados respondeu afirmativamente à pergunta, dizendo-se preparado, assim como você acha que está. Em países de economia avançada, como Japão e Estados Unidos, a resposta se inverteu, dizendo-se despreparados para tal empreendimento. Isto significa que os empreendedores de cá não enxergam o alto grau de complexidade que existe num empreendimento como enxergam os empreendedores de lá. A percepção dos empreendedores brasileiros é semelhante à sequência simples de progressão aritmética da primeira série de números, enquanto que a percepção (correta) das pessoas dos países desenvolvidos é semelhante à sequência de progressão geométrica da segunda série de números.

– Arthur, preste atenção, na verdade, a maioria dos nossos empreendedores entende daquilo que faz como entenderia um empregado. Entende de cozinhar (chef), de costurar, de língua estrangeira, de contabilidade, mas não entende do negócio em si como, por exemplo, atrair clientes, como se ganha dinheiro naquele setor, como vender, como criar relações, como criar vantagem via produtividade, como liderar e motivar equipes, como enfrentar e superar a concorrência e assim por diante.

– Responda-me Arthur, com sinceridade, neste quesito ‘dominar a atividade empreendedora’ o quanto você está preparado? O quanto você conhece a atividade que vai empreender?

– Zero, pois nem sei qual é o ramo que pretendo atuar…

– Vamos avançar. Diga-me se você estivesse no meio da selva amazônica e recebesse somente informações sobre o faturamento de sua empresa, você seria capaz de tomar alguma decisão?

– Provavelmente não – respondeu acertadamente.

– E se tivesse informações sobre salários pagos, receitas, aluguel, custos da mercadoria, contas a pagar, contas a receber, tributos, custos de entrega, pró-labore, você seria capaz de calcular a margem de contribuição, o lucro operacional, o lucro líquido, a rentabilidade e o retorno do investimento, e a partir destes indicadores tomar decisões para garantir o crescimento lucrativo da empresa?

– Não, pois não sei nada sobre este assunto.

– Responda-me mais uma pergunta. O quanto você tem de dinheiro (capital inicial) para investir?

– Pouco, muito pouco, respondeu.

– Arthur, você captou o que conversamos até agora? Veja, sabemos que não existe negócio certo, pois mesmo que o empreendedor domine sua ‘atividade empreendedora’ (33% de êxito), domine a ‘linguagem empresarial’ (33% de êxito) e tenha o ‘capital necessário e suficiente’ (33% de êxito), ainda assim existe 1% atribuído àquilo que é aleatório e depende da sorte ou azar. Mas também sabemos, por experiência, que existe a ilusão da mágica do empreendedorismo, que é o seu caso, que, ao contrário, faz com que a pessoa abra o seu negócio com apenas 1% de probabilidade de sucesso.

O jovem inteligente e solitário Arthur caiu em si e percebeu que iria para o mercado com 1% de chances de êxito, observou Ane.

– Isto é incrível disse ele – com o semblante de quem levou um choque.

– Você não é exceção. Sua situação é idêntica a boa parte dos empreendedores brasileiros, que usam o empreendedorismo como um substituto do emprego, o que é um grande equívoco, pois o empreendedorismo é um instrumento do capital, de investimentos que são realizados e requerem o retorno do dinheiro investido, multiplicado, o mais rápido possível.

– Por isso, boa parte dos microempresários brasileiros trabalham como um louco e não enxergam a cor do dinheiro, pois praticam um subempreendedorismo. Eles, na maioria das vezes, jogam um jogo em que não conhecem direito as regras, e daí, na linha de partida, saem atrasados e devendo. Atrasados em relação ao domínio da “atividade empreendedora”, em relação ao conhecimento da “linguagem empresarial” e devendo em relação ao “capital necessário e suficiente”. Depois levam uma vida inteira fazendo uma corrida de recuperação, da qual poucos conseguem dar uma virada.

Em 2017, pense grande e faça um favor para você mesmo: prepare-se antes de empreender. E se já for um empreendedor, prepare-se ainda mais.

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