João Kepler

Autor do livro “Educando filhos para empreender”, o investidor orienta os pais a aplicarem uma educação empreendedora dentro de casa

Acari Amorim 20/11/2017
Acari Amorim 20/11/2017

João Kepler é um empresário, escritor, investidor e um palestrante dos mais requisitados hoje em todo o Brasil. Ele começou a vida empreendedora muito cedo, com apenas 11 anos, em Belém do Pará, quando vendia coisas usadas na escola e no apartamento onde vivia. Com 16 anos montou a empresa Kepler Soft que produzia e vendia programas para clínicas e consultórios médicos na cidade. Ganhou dinheiro e pegou o gosto para empreender.

Hoje, considerado um dos mais atuantes Investidor Anjo do país, através da sua empresa Bossanova investe em mais de 100 startups, entre elas a 33/34 que é um grande sucesso de venda pela internet de sapatos com esses raros números. No momento também está lançando, pela Editora Ser Mais, o livro “Educando Filhos para Empreender”. Nesta entrevista, João Kepler foca na importância dos pais educarem seus filhos com uma mentalidade empreendedora, não apenas para mais na frente montarem empresas, mas terem uma vida desde cedo mais responsável e com melhores resultados. João Kepler é pai de três filhos, dois com menos de 18 anos, mas os três já são empreendedores.

É importante incentivar as crianças a empreenderem?

João Kepler – É importante estimular as crianças a terem atitudes empreendedoras. Isso, basicamente, é incentivá-las a buscar soluções para problemas reais, que surgem na vida de todos nós independentemente da idade, inclusive na primeira infância. O empreendedorismo não nasce necessariamente com a criança, mas é possível ensinar. Incentivar o empreendedorismo é incentivar a criatividade, a resiliência, a organização, a coragem, a autonomia, a tomada de decisões. São conceitos que só trazem benefícios às crianças, e não estou falando apenas da futura vida profissional, da criação de um negócio. É um novo estilo de vida, com o objetivo de buscar alternativas frente às adversidades, de não se acomodar. Claro que isso também trará impacto positivo na educação financeira dessas crianças, mas o objetivo é ainda mais amplo.

Famílias que desconhecem o modelo de educação empreendedora acabam não estimulando os filhos a serem criativos?

Vejo muitos pais e mães superprotegendo seus filhos. Claro que eles acreditam ter a melhor das intenções, porém, o excesso de medo vai na direção contrária da valorização da autonomia. A criatividade também aflora em momentos de dificuldades. Se os pais evitam qualquer tipo de contato dos filhos com problemas cotidianos, como eles aprenderão a buscar soluções por si mesmos?  Eu considero que até os erros são importantes na educação empreendedora. As crianças devem aprender com os próprios erros. É melhor que elas falhem mais cedo do que venham a cometer erros básicos futuramente. Outro problema que vejo se repetir são pais se apresentando como super-heróis aos filhos, como pessoas que não falham, não se fragilizam, não passam por dificuldades. Fica difícil depois para as crianças aceitarem suas próprias frustrações e aprenderem a se reerguer.

Existe uma cultura de empreendedorismo no Brasil?

Infelizmente, não acredito que já exista uma cultura de empreendedorismo no Brasil, tampouco incentivos nessa área – tanto na política econômica como na educacional. Mas acho que o momento exige que seja criada essa cultura, sob o risco de ficarmos cada vez mais para trás. Vejo iniciativas ainda um pouco isoladas, mas crescentes no país nesse sentido, como é o caso das startups. É hora de ampliarmos o debate sobre as novas exigências do mercado nacional e mundial. Só assim poderemos romper com uma cultura atrasada, que prepara os nossos jovens para um cenário que eles não vão mais encontrar na futura vida profissional.

Como o senhor vê o cenário brasileiro atual?

Os empregos considerados formais estão diminuindo, tanto no serviço público como na iniciativa privada. Vejo que haverá cada vez menos espaço no mercado para quem se prepara exclusivamente pensando em ter o seu salário fixo no fim do mês, com carteira assinada e uma suposta estabilidade. Isso me parece irreversível. Daí a lógica que eu insisto que devemos seguir: de preparar os nossos filhos para o mundo, e não querer mudar o mundo para eles.

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre esse assunto?

Eu já tinha esse modelo empreendedor incorporado na minha vida. Meu pai sempre me ensinou a me esforçar para alcançar o que eu queria. Ele apontava o caminho e me dizia: vá! Como eu nunca tive nada entregue por ele sem ter que me mexer, aprendi a empreender desde cedo. Hoje, tento fazer parecido com os meus três filhos. A Maria (13 anos) produz cupcakes e os vende na escola desde os oito anos; Davi (16 anos) lançou nesta semana o livro Empreender grande, desde pequeno (pela editora Buzz) e é fundador de uma startup chamada List-It (de lista de material escolar), além de rodar o país fazendo palestras e inspirando jovens; e o Theo (18 anos) é um negociador nato, fundou e vendeu empresas e é produtor de eventos. Todos eles, porém, não deixam de estudar, tiram boas notas, e organizam o tempo para poderem se divertir e se relacionar.

Quais dicas o senhor pode dar para os pais que querem estimular os filhos a empreenderem?

O retorno que tenho obtido nos últimos anos me aponta que estou no caminho certo. Tenho cumprido meu papel de mostrar aos pais que existem outras possibilidades, que vão além dos métodos tradicionais que eles aprenderam. Muitas pessoas me perguntam o que fazer para também estimular os filhos delas a empreender. Digo para adotar um estilo de vida empreendedor, mostrando para os filhos que você busca uma boa qualidade de vida. Mostre que você divide corretamente o tempo destinado ao trabalho e ao lazer. Seja responsável nas suas ações, dando exemplos, principalmente nas questões financeiras. Não dê mesada aos seus filhos, estimule que ele negocie contigo a cada nova vontade ou necessidade. A mesada traz uma falsa sensação de segurança, acostuma a criança a achar que sempre terá um dinheiro garantido no fim do mês. Valorize ações criativas, viva com paixão!

O senhor acha que essa educação contribui para que a criança valorize o dinheiro?

Trato bastante dessa questão no meu livro “Educando filhos para empreender”. Empreendedores de sucesso costumam alcançar boa autonomia financeira, costumam ganhar bastante dinheiro. Mas essa não deve ser a meta principal. Ao contrário, o dinheiro deve ser consequência de um estilo de vida empreendedor. Dar valor ao dinheiro é fundamental, mas isso é diferente de valorizar apenas o dinheiro.

O empreendedorismo pode mudar o futuro de um país?

Eu acredito que o empreendedorismo é uma alternativa para o desenvolvimento econômico de qualquer país. Já vimos isso em outras nações e confio que no Brasil não será diferente, mas para isso é preciso criar uma cultura empreendedora. Daí a importância de levarmos esse conceito para dentro das escolas e também para o dia a dia familiar.

JOÃO KEPLER

Cidade natal: Belém do Pará

Idade: 47 anos

Empresa: Bossainvest

Atuação: Especialista em comércio eletrônico, marketing digital, empreendedorismo e vendas. Investidor Anjo, cotista em aceleradoras de empresas. Premiado como um dos maiores incentivadores do ecossistema empreendedor no Brasil.

Contato: Kepler@bossainvest.com

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