Luciano Gurgel

Gestor da unidade brasileira da Yunus Social Business Global Initiatives mostra como gerar negócios resolvendo problemas sociais e ambientais

Redação 03/12/2017
Redação 03/12/2017

Implementar negócios que resolvam problemas sociais, ambientais e que ainda gerem lucro. Esse é o conceito dos negócios sociais. A ideia começou a ser difundida pelo professor Muhammad Yunus, economista, natural de Bangladesh. O professor Yunus trabalhava com foco em oferecer crédito para pessoas bem pobres, em Bangladesh, que tivessem o objetivo de começar pequenos negócios. O empenho de Yunus nessa missão foi reconhecido com o Prêmio Nobel da Paz em 2006. E isso chamou a atenção do mundo todo. Mais tarde, a sistemática desenvolvida por Yunus pôde ser reproduzida com sucesso em várias outras partes carentes do globo.

A unidade brasileira da Yunus Social Business Global Initiatives começou a funcionar em 2013 com a missão de ajudar o surgimento de negócios sociais no país. À sua frente está o gestor Luciano Gurgel, que é formado em Economia pela USP, tem experiência de 17 anos no mercado financeiro e passou por diversas instituições – como Banco Real, Banco Santander, HSBC e Banco Safra. Gurgel também foi membro do comitê de finanças corporativas da ANBIMA por mais de cinco anos. Hoje, ele dedica sua carreira a fomentar negócios sociais com empreendedores e grandes corporações, que entendem que seu papel na sociedade transcende a geração de lucros.

Então, saiba mais como funcionam os negócios sociais na prática acompanhando a entrevista abaixo.

Como surgiu a Yunus Social Business e o conceito de negócio social?

O Yunus é criador de dois conceitos que hoje são muito presentes. O primeiro deles, e que talvez seja o mais famoso, é o conceito de microcrédito. Ele fundou um banco em Bangladesh e o apelido dele, mundialmente conhecido, é “banqueiro dos pobres”. Então, o Yunus começou o Grameen Banking, que tem milhões de clientes em Bangladesh, e um dos princípios do banco é fornecer crédito às pessoas da base da pirâmide social e com foco em investimentos e criação de novos negócios e não no consumo.

O trabalho dele no desenvolvimento desse banco trouxe a ele o Prêmio Nobel da Paz em 2006. Em paralelo, Yunus cria o conceito de “social business”, que em português ficou com a tradução literal de “negócio social”. Quando uma empresa é um negócio social, é considerada, obviamente, um negócio e isso significa que tem que funcionar do ponto de vista financeiro, ou seja, dar lucro, gerar dividendos e, o mais importante, elas devem resolver um problema social. Então, temos empresas que proveem serviços para solucionar problemas de educação e saúde. Há uma série de empresas que nascem com o objetivo de resolver um problema e também fazem de uma maneira que possa ser sustentável financeiramente.

Como a Yunus Social Business atua no Brasil?

Depois que Yunus ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2006, um grupo da Alemanha chamou o Yunus para tentar globalizar as ações que ele tinha realizado em Bangladesh para reduzir a pobreza. Desse encontro, surgiu a Yunus Social Business, em 2011, cuja sede é em Berlim. Hoje, a Yunus está presente em sete países. Nas Américas, a Yunus tem escritórios no Haiti, na Colômbia e no Brasil. Na África, estamos na Tunísia e em Uganda. Na Europa, a Yunus também está na Albânia. E na Ásia, estamos na Índia. No Brasil, estamos presentes há quatro anos, desde 2013. E nosso foco é um pouco diferente do que acontece em Bangladesh, pois não fornecemos microcrédito para pessoas da base da pirâmide social.

Nós oferecemos crédito para os negócios sociais, ou seja, para empresas que tem projetos que vão ajudar a resolver algum problema social. Geralmente, são liberados valores maiores, na faixa entre R$ 200 mil a R$ 300 mil para que os negócios dessas empresas se estabeleçam. E antes de liberarmos o crédito, damos uma assessoria à empresa. Oferecemos às empresas um apoio não financeiro, que envolve mentoria, qualificação de negócios, abertura de mercado e consultoria nas mais diversas áreas.

Isso porque é muito comum, por exemplo, que os empreendedores tenham somente parte dos conhecimentos necessários para empreender. Porém, para montar uma empresa é necessário ter conhecimentos das áreas jurídica, comercial, comunicação, financeira, etc. E o empreendedor geralmente não tem esses conhecimentos logo no início. Assim, conseguimos fornecer aos empreendedores um apoio robusto em todas essas áreas para que o negócio comece a funcionar harmoniosamente. E também fornecemos o apoio financeiro, propriamente, através da concessão de crédito.

Quais projetos são desenvolvidos pela Yunus Social Business no Brasil?  

Ao longo dos quatro anos da Yunus no Brasil, 33 empresas passaram pelo processo de aceleração, sendo que 12 delas são negócios oficiais e ativos. E duas dessas empresas receberam investimentos da Yunus: Moradigna e Assobio. A Moradigna é uma empresa que trabalha com reformas em residências insalubres em regiões pobres de São Paulo, especialmente em uma região chamada Jardim Pantanal, que sofre muito com enchentes. Então, a Moradigna faz reformas nos banheiros das casas. É uma reforma rápida que dura entre 4 a 5 dias.

Já a Assobio é uma empresa que trabalha com reflorestamento de muda nativa no interior de São Paulo. Só para contextualizar: no último ciclo do etanol no Brasil, a região do interior de São Paulo foi praticamente toda desmatada para plantar cana-de-açúcar e isso é um problema ambiental e social, pois tirou o homem do campo e agravou os problemas das concentrações urbanas nas regiões centrais da cidade. Então, a Assobio, por causa da obrigação de compensação ambiental nos contratos de grandes empresas, faz o replantio de espécies nativas. Outra empresa que acompanhamos é a Ver Bem.

Esta empresa faz uma parceria com um grupo da Alemanha que chama “One dollar glasses”, que desenvolveu uma tecnologia para vender óculos a preços muito baratos. No Brasil, a empresa está conseguindo vender óculos ao preço de R$ 79,00 para atender à população de renda mais baixa. E temos também exemplos de outras empresas que trabalham a questão do lixo no estado de São Paulo, a inserção de pessoas com mais de 50 anos no mercado de trabalho e que oferecem cursos de idiomas à população que integra a base da pirâmide social. Enfim, temos várias empresas que têm sustentabilidade financeira e foco principal na solução de um problema social.

Você acredita que uma empresa já pode começar seu negócio diretamente com essa proposta ou precisa de um tempo de mercado?

Depende do setor no qual a empresa atua. De fato, é mais fácil uma empresa tradicional migrar para o setor social do que uma ONG, que nasce como uma instituição filantrópica, se transformar em uma empresa com esse propósito. Mas, isso não é uma verdade eterna, vai depender muito do produto ou serviço que é oferecido.

Você acha que a geração de agora está mais voltada a desenvolver negócios sociais? Seria uma tendência atual?

Hoje, o número de jovens que estão saindo das universidades e buscando empreender é crescente. Se olharmos para uma geração anterior era quase automático que os jovens saíssem das universidades e fossem procurar um emprego. Então, agora, boa parte dos jovens vai para o mundo do empreendedorismo de alguma forma. Eu chamo isso de “efeito Steve Jobs”. Isso porque a história dele envolve a paixão pelas próprias criações com cada apresentação de produto sendo um grande evento. Filho de refugiados sírios que cresceu em uma família adotiva e montou sua empresa na garagem de casa, ficou no inconsciente dessas novas gerações, transmitindo a mensagem que todo mundo pode empreender. E, apesar da maioria pensar e querer fazer um negócio para ficar rico, querer construir um império, ser um “Steve Jobs” ou aspirar ser uma boa parte desses jovens – diria que cerca de 15% a 20% deles, colocam como meta uma missão social.

Na sua visão, existe no Brasil grande potencial para criar negócios sociais?

Vários empreendedores que apoiamos estão na faixa etária de 20 a 30 anos, e querem deixar um legado, construir um produto ou serviço que pode ser a solução para um problema social. Só para se ter uma ideia, em julho estivemos em Uganda, na África – que é um dos países mais pobres do mundo – pois temos operação lá também e vimos estudantes de Harvard, na faixa dos 25 anos, empreendendo soluções para o acesso à água. Então, existem muitos jovens empreendedores que se colocam em uma missão de deixar um legado na história. E o Brasil tem uma veia empreendedora muito forte. Em parte, isso é atribuído ao cenário de crise econômica, inflação, porém a característica de veia empreendedora é marcante.

Na sua experiência, como os negócios sociais são vistos pela sociedade em geral?

Tudo que é novo tem uma curva de aprendizado natural para as pessoas entenderem. Mas, no geral, é muito bem visto. Uma geração atrás sempre dizia: é a diferença entre o peixe e a vara. Dar condições para as pessoas serem protagonistas de sua própria história e, com isso, conseguirem proporcionar uma transformação no mundo. Por tudo isso, é muito bem visto essa área. Tem eventos, concursos e prêmios que reconhecem o trabalho dos empreendedores sociais.

Os negócios sociais funcionam para qual perfil de empreendedor?

Geralmente, são jovens recém-saídos de universidades e escolas de negócios que querem unir a sua atuação profissional a um propósito. No Brasil, existe uma cultura de filantropia, que não é tão desenvolvida como nos EUA e Europa, mas existem famílias brasileiras muito ricas e filantropas, que doam recursos. Por isso, temos os institutos, como o Klabin, Gerdau, McDonalds, que doam recursos para os fins mais nobres possíveis. E nesse contexto, gostaria de destacar que essa maneira tradicional de fazer filantropia pode ser otimizada e melhorada. De que forma? Sendo inserida em uma lógica de mercado, otimizando os recursos da filantropia e gerando uma forma perene e constante de fazer o bem, sem depender de doações recorrentes de recursos.

É uma lógica que funciona assim: em vez de doar os recursos, eles podem ser investidos, dentro de uma lógica de um negócio social para que os recursos possam ser recicláveis ao longo do tempo. Por exemplo, no caso dos empreendedores sociais, em vez de dar dinheiro a eles, a Yunus empresta dinheiro a eles, obviamente, em condições muito mais favoráveis do que o mercado oferece. E uma vez que esses empreendedores devolvem os recursos, é possível montar uma estrutura perene de financiamento sempre voltada a este tipo de negócio.

Temos também na Yunus uma área de assessoria para grandes empresas. Pois está começando uma tendência corporativa de buscar propósito na atuação das empresas. Junto com a Ambev, desenvolvemos uma água chamada “Ama”, que o propósito dela é reverter 100% do lucro para projetos de acesso à água no semiárido brasileiro. Então, é um grande exemplo de que não somente pessoas, mas também empresas estão buscando uma maneira de impactar positivamente a sociedade.

 

Comentar

Os itens com asterisco (*) são obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.