Relaxe. Viva com um robô

Gabriel Dias, especialista em internet das coisas, mostra como será a vida na 4ª Revolução Industrial que já começou

Raquel Pazzoti 07/08/2018
Raquel Pazzoti 07/08/2018

Chegar em um estabelecimento comercial e ser alertado pelo seu próprio celular sobre a promoção de um produto, vestir dispositivos tecnológicos, como relógios inteligentes e fazer transações financeiras com moedas virtuais são alguns dos exemplos práticos que estão acontecendo atualmente pelo mundo. Todas essas inovações tecnológicas são parte de uma tendência chamada Internet das Coisas, que vêm do inglês Internet of Things (IoT).

No Brasil, esse movimento também está crescendo. Em 2017, foi possível acompanhar a evolução das conexões entre máquinas, que passaram a ser adotadas em grandes empresas brasileiras, como bancos, operadoras de telefonia e, principalmente, varejistas. De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o Brasil fechou o mês de outubro de 2017 com 14,8 milhões de conexões máquina a máquina (M2M), usadas em diversas aplicações. Isso representa um crescimento de 20,1% quando comparado com o mesmo período do ano anterior.

Segundo Gabriel Dias, PhD em IoT e líder de projetos da Semantix, empresa especialista em Big Data, Internet das Coisas, Inteligência Artificial e Análise de Dados, este ano será especialmente relevante para o caminho de consolidação da tecnologia. O primeiro grande fator de impacto nas tendências, citado por ele, é o Plano Nacional de IoT, elaborado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

O documento aponta que os setores rurais, sustentados pelo agronegócio, e as indústrias de base possuem uma alta capacidade de desenvolvimento, uma vez que são responsáveis por grande parte do PIB nacional. “Podemos esperar programas de investimento do BNDES que incentivem novos negócios na área agrícola e nas indústrias de base”, afirma.

O especialista complementa que com a chegada de novos dispositivos e serviços no mercado brasileiro grandes empresas investirão no marketing para melhorar a experiência dos clientes do varejo. “Por exemplo, ao chegar em um estabelecimento, o cliente poderá receber um alerta sobre a promoção de um produto que ele demonstrou interesse quando visitava a loja virtual da marca”, destaca Gabriel.

Confira abaixo a entrevista completa com Gabriel Dias sobre como a IoT vai impactar as empresas, mercados e serviços nas mais diversas áreas:

1) Poderia explicar mais sobre o que é Internet das Coisas (IoT)?

É um conceito cada vez mais amplo, que começou, na verdade, há muito tempo e com o atual baixo preço dos dispositivos se expandiu. Trata-se de conectar dispositivos com máquinas, aparelhos ou objetos e tirar dados e informações relevantes dessa integração. Por exemplo, quando usamos relógios inteligentes que monitoram o sono ou sensores de temperatura, para medir o ambiente ou mesmo a febre. Pode ser usado em coisas simples, como acompanhar a pulsação cardíaca ou servir até mesmo para controlar máquinas da linha de produção de uma indústria e prever quando ela vai quebrar. Essa interação vai trazer dados e o trabalho feito em cima desses dados pode ser muito valioso.

2) Como esse movimento pode impactar as empresas de modo geral?

Pode impactar em cinco diferentes frentes: primeiramente com a criação de novos produtos, pois as pequenas e grandes empresas podem criar produtos baseados em gerar informação. A marca Rolex, por exemplo, pode lançar uma versão dos relógios com o objetivo de monitorar o sono, registrar o quantos kilometros a pessoa anda por dia, ou seja, diversos dados que o usuário do produto pode mandar para um aplicativo e fazer uso dessas informações para seu próprio bem. Em seguida, vem a criação de novos serviços. Além do produto que já vende, uma empresa pode agregar ainda mais oferecendo um serviço ligado a esse produto. Por exemplo, uma empresa que vende máquinas, pode ceder as máquinas e cobrar por hora de uso. Depois, posso citar a questão de melhorar a experiência do cliente: no varejo, o cliente que procurou no site de uma determinada loja por um produto, pode ser avisado sobre esse mesmo produto, quando ele entrar na loja física da marca.

Essa conexão entre o cliente e a loja aconteceria através de alguns sensores nas lojas que mandariam a informação para o cliente pelo celular, se ele tivesse o aplicativo da loja instalado. Assim, como acontece no mundo virtual pode chegar no mundo real nas lojas físicas e, desta maneira, proporcionar um atendimento personalizado. Proporcionar às empresas uma nova fonte de renda é outro aspecto trazido pela IoT, por meio da venda de dados e informações. Imagine que uma empresa tenha sensores de temperatura instalados em várias bancas de jornais da cidade e venda os dados para uma empresa de meteorologia dar uma previsão do tempo mais específica e assertivo para determinado bairro. Por fim, a possibilidade de coleta e análises de dados: clínicas e médicos podem vender relógios que guardam informações sobre o paciente, lojas podem melhorar a fidelidade dos clientes mediante os próprios dados fornecidos por eles. Enfim, as possibilidades são enormes e descobrir muitos “insights” sobre os clientes com essas informações vai depender da análise do gestor e/ou CEO das empresas .

3) Como você vê a posição do Brasil em relação a essa tendência?

O Brasil tem ótimos profissionais que conseguem trabalhar com os dados e fazer análises estratégicas. Em comparação com EUA e Europa, o Brasil tem dois obstáculos, que são o alto custo de importação de dispositivos tecnológicos (hardware) e os investimentos mais restritos, que vêm de empresas privadas e startups. Tem várias ideias que estão sendo desenvolvidas nos EUA e Europa. Tem projetos internacionais muito grandes na Europa que foram criados com investimentos da União Europeia. Mais recentemente, temos no Brasil, uma situação especial que é um plano que define alguns direcionamentos para o setor de IoT no País como um todo e os investimentos vão vir também por parte do governo.

4) Quais setores da economia brasileira precisam evoluir para seguir esse movimento e quais já estão mais avançados?

A agricultura é uma referência em IoT. O setor já trabalha com sensores há alguns anos, porém não era chamado de IoT. O monitoramento de fazendas e plantações está avançando cada vez mais. Na agricultura de precisão, já existem startups que estão criando tecnologias para monitorar as plantações em detalhes, trazendo informações  sobre a saúde das plantas, uso de agrotóxicos, etc. Existem startups grandes que estão investindo nessa área. A indústria também já caminha bem, incorporando todas essas inovações. Fala-se na 4° Revolução Industrial. E desta vez, o Brasil pode ter a chance de não estar atrasado. Nas outras revoluções industriais, o Brasil estava atrasado. O IoT é, de fato, a 4° revolução industrial e o País está alinhado tecnologicamente com outras grandes potências.

Atualmente, a indústria já tem toda a linha de produção sendo monitorada por sensores. Agora, o Brasil está muito atrás quando fala-se no conceito de “cidades conectadas”. Isso significa a ideia de ter uma cidade com vários sensores conectados, que podem medir temperaturas em diferentes partes da cidade, monitorar a quantidade de lixo nas lixeiras, controlar os semáforos, contribuindo para diminuir o tráfego. Enfim, informações diversas sobre as cidades para melhorar a qualidade de vida das pessoas e otimizar recursos. Um dos casos mais famosos de cidade conectada é Barcelona, na Espanha. E a cidade pioneira nesse conceito foi Santander, também na Espanha.

Nos EUA, tem vários exemplos de cidades conectadas também. Existem cidades que o Google colocou uma série de sensores, mudando a vida das pessoas. O que impede o Brasil de desenvolver algo similar são a falta de investimentos por parte dos governos e também a ausência de um mesmo padrão no quesito tecnológico e de infraestrutura adotados por várias cidades.

5) O que você sugere que as empresas, desde micro até grandes, façam para aproveitar essa tendência a favor dos seus negócios?

Entender que o IoT não é só ligar um sensor na Internet e esperar que uma mágica aconteça. É necessário ter claro que é preciso ter conhecimento de tecnologia e também depois fazer um bom proveito das informações. Para isso, sugiro procurar uma consultoria especializada e investir nisso para entender o que pode ser melhorado nos negócios da sua empresa hoje. O ideal é começar com projetos pequenos, de dois a três meses de duração, que tenha um retorno palpável. Fazer um teste e ver se valerá a pena para a empresa. Se for varejista, pode testar a proposta em uma das lojas da rede, por exemplo. É um processo que deve estar em constante evolução.

6) Quais são as tendências para o futuro dentro do universo da IoT? Há uma previsão para o aumento do uso das “wearable”, as chamadas “tecnologias vestíveis”, que consistem em dispositivos tecnológicos que podem ser utilizados pelos usuários como peças do vestuário. E o que mais?

Hoje no Brasil, esses dispositivos são caros. O custo de importação é alto. A popularização dessas tecnologias ainda pode demorar. Por outro lado, tem vários aplicativos para o celular que ajudam a ter acesso a essas tecnologias, como o controle do sono. Agora, a tendência é que sejam lançadas peças de roupas que vão ajudar a monitorar a recuperação de um paciente, um medidor de temperatura que fica dentro do relógio e trará recomendações em tempo real sobre o estado de saúde da pessoa, etc.

7) Fala-se muito também sobre a evolução das transações com as criptomoedas, como o Bitcoin. Você acredita que em um futuro próximo não terão mais bancos?

Acredito que o papel dos bancos é que devem evoluir. Existem grandes bancos no Brasil que estão evoluindo, criando plataformas digitais para facilitar a colaboração entre startups e empresas. Dessa forma, vai quebrar o paradigma do banco ser uma empresa solitária e super fechada. Mas, esse processo deve acontecer até mesmo para melhorar os próprios negócios do banco.

8) Que ensinamento/mensagem você poderia dizer para os empreendedores que estão começando ou mesmo que já estão no mercado há muito tempo e temem essas inovações?

Comenta-se muito sobre o medo da inteligência artificial (IA). Hoje, já sabemos que a IA deve substituir e eliminar trabalhos automáticos e de checagem. Esses tipos de trabalhos tendem a ser eliminados. Os tipos de trabalhos que não serão eliminados são aqueles que dependerão muito das habilidades humanas. Os trabalhos que exigem criatividade, empatia, entendimento e análise do ambiente e da situação não irão acabar. Por exemplo, os radiologistas não serão substituídos pela IA, mas os que não souberem usar a IA é que serão substituídos. Os aplicativos devem ajudar o homem, o robô vai ajudar o empreendedor para que ele tenha um conhecimento apurado sobre o cliente. O robô, o algoritmo estão aí para ajudar e quem não temer, ao contrário, souber usar é que vai estar à frente.

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