Conferência debate inserção de produtos indígenas no comércio das Américas

redacao 10/12/2009
redacao 10/12/2009

Da vontade de preservar a história, a cultura e a prática de fazer artesanato com os frutos, as semenes, as fibras e muitos outros artigos encontrados no interior da floresta amazônica, surgiu, em 1999, a Associação dos Artesãos Indígenas (Assai) de São Gabriel da Cachoeira, município localizado no norte do Amazonas, a cerca de 860 quilômetros de Manaus.

Criada por um grupo de índios de nove etnias, a associação congrega atualmente representantes diretos de 30 famílias que vivem na cidade – onde comprovadamente vive a maior população indígena do país – e é responsável pela divulgação e organização administrativa do comércio realizado com os acessórios e artigos de decoração que seus associados produzem.

De acordo com a coordenadora da associação, Célia Albuquerque, da etnia Piratapuia, toda produção é feita de forma artesanal e o lucro compartilhado entre os associados. Ela explica que, apesar da vontade e do empenho na atividade, ainda existe uma grande barreira para garantir maior lucratividade pelo trabalho, que é o escoamento da produção.

"Nossa cidade é pequena e temos muitas dificuldades para vender nossos produtos para outros lugares. Estamos conseguindo viver desse trabalho, mas ganhamos pouco diante do esforço para fazer produtos de melhor qualidade", diz Célia.

As dificuldades encontradas para a distribuição e a venda de artigos indígenas e outros aspectos relacionados ao trabalho desses povos estão sendo discutidos, em Manaus, desde segunda-feira (21), na Conferência sobre Empreendedorismo Indígena nas Américas.

O evento começou no Novo México, no sudoeste dos Estados Unidos, com a participação de grupos de indígenas locais, e hoje está na terceira edição. O objetivo da Conferência sobre Empreendedorismo Indígena nas Américas é reunir líderes indígenas, representantes de entidades públicas e privadas, instituições multilaterais, estudantes e até mesmo pesquisadores interessados em formar alianças para a superação dos atuais entraves, assim como para a promoção e o desenvolvimento dos negócios indígenas.

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"Queremos mostrar alternativas econômicas para os povos indígenas, que também precisam de emprego e renda para sobreviver. Eles precisam de oportunidades e de valorização. As comunidades precisam dar um preço mais justo ao artesanato vendido, porque são produtos de excelente qualidade", ressalta o diretor e idealizador da conferência, o professor universitário Raul Gouveia.

Ele explica que a escolha por Manaus para sediar a terceira edição da conferência se deu em função de o Amazonas abrigar a maior população indígena do Brasil.

"Existe uma relação interessante entre Novo México, onde foram realizadas as duas edições anteriores do evento, e Manaus, que é o fato de cada uma delas concentrar o maior número de indígenas dos respectivos países onde estão localizadas", diz. Segundo o idealizador do evento, a conferência é um primeiro passo para ultrapassar os entraves que impedem o desenvolvimento do empreendedorismo indígena.

"A conferência é só um primeiro passo. Estamos investigando e pesquisando alternativas econômicas que promovam o empreendedorismo indígena. Existe muita coisa a ser feita e o evento marca o início disso. Uma das coisas principais é começar a discutir as possibilidades e dinamizar as atividades praticadas. Além disso, é entender que é preciso estabelecer ligações entre os setores envolvidos nesse comércio, sejam eles indígenas ou não".

Na opinião de Gouveia, o setor privado deve começar a formalizar sua participação nesse comércio. "A gente tem que parar com essa história de que o setor público vai resolver tudo. O setor privado tem que começar a ter uma participação mais ativa e ter mais parcerias com os índios. As linhas de microcrédito, por exemplo, já podem chegar às comunidades indígenas".

A Conferência sobre Empreendedorismo Indígena nas Américas, que termina na sexta-feira (25), conta com uma série de apresentações em sua programação, assim como de palestras de conferencistas brasileiros e de outros países, debates envolvendo a sociedade civil e representantes indígenas, além da exposição e venda de produtos indígenas.

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