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Empreendedorismo nascido nas garagens dá os melhores resultados, diz escritor

Euclides Lisboa 13/03/2017
Euclides Lisboa 13/03/2017

Autor do livro “Incansáveis”, lançado no Brasil em outubro, o especialista em empreendedorismo Maurício Benvenutti  revela como os “pequenos empreendedores de garagem” estão mexendo na vida de grandes corporações, pelo aporte de tecnologia e inovação. Mesmo os profissionais liberais vão precisar, cada vez mais, da tecnologia para solucionar os problemas de seus clientes. Nesse processo sem volta, ele destaca a participação das startups com indispensáveis ao sucesso da atual explosão de modernidade. Em viagem ao Brasil e fora do seu local de trabalho, o Vale do Silício, na Califórnia, onde também reside, Maurício concedeu esta entrevista para a Revista Empreendedor.

Em que ponto o empreendedorismo hoje está se beneficiando da tecnologia?

Maurício Benvenutti – Hoje o que a gente tem visto são profissões não tecnológicas sendo substituídas pela tecnologia. Como, por exemplo, os pontos de taxis. A tecnologia ofereceu um serviço melhor, rompendo uma indústria de 100 anos. Existem outros exemplos, como advogados que usam inteligência artificial para resolver casos mais básicos rapidamente (justamente aqueles dos advogados no início de carreira), aconselhamento financeiro, contábil, médico. Cada vez mais a tecnologia afeta profissões que historicamente não são tecnológicas. O empreendedorismo vem se beneficiando e colocando a tecnologia a seu favor para soluções sem precedentes na história da humanidade com soluções realmente inovadoras.

Quais os setores que mais podem avançar com processos de inovação à disposição?

Todos, principalmente o de serviços no Brasil, eles vão ser altamente impactados, como o Easy Taxi, que foi criado muito antes do Uber e já revolucionou, o iFood, é o maior de alimentação delivery da América Latina. São serviços que trouxeram soluções rápidas. De uma forma geral, o impacto da tecnologia vai aumentar o nível. Os profissionais liberais, como médicos, assessores financeiros, contadores… todos terão que aderir porque só a tecnologia vai garantir a solução.

A economia brasileira anda devagar por que não recorre à tecnologia ou por que a tecnologia mais avançada está à frente da realidade da estrutura empresarial brasileira?

Três fatores. Primeiro: a presença da rebelião, pessoas que não se conformam com a mesmice. Segundo: conhecimento. Se não há conhecimento, não há oportunidades. O terceiro é o capital financeiro. Precisa ter dinheiro para transformar em realidade, formando um tripé para uma solução inovadora, assim como o Vale do Silício, que é um modelo replicado. O Brasil está se espelhando nisso e começa a ter um bom nível de capital intelectual e financeiro. Aqui precisa de mais apoio para as ideias andarem mais rápido, mas, na minha visão, o que faz é a presença do tripé mais poder público.

Qual a importância das startups nesse processo?

Elas são fundamentais. Se olharmos as últimas décadas, as principais transformações vieram por meio das startups. Por que o Hilton não criou o AirBnb… foi uma startup. Por que as mídias não criaram o Facebook… foi uma startup. O Uber nasceu como uma startup. Os negócios têm transformado empresas e corporações já estabelecidas. Eles já encontraram uma fórmula, já sabem como ganhar dinheiro, já tem clientes e processos. É muito difícil que uma corporação encontre um produto altamente inovador e colocar em prática… já tem tarefas. Por isso é das startups… então o que as grandes corporações fazem é aproximar-se de startups justamente para realizar as inovações que não conseguem fazer dentro de casa. Eu trabalho no Rocket Space em São Francisco, que é sustentado por grandes empresas, como a Ambev, British Airways, Volkswagen. O Uber começou lá, o Spotfy…. querem estar de olho nas 150 startups lá para possivelmente se aproximarem delas

O senhor é especialista em transformar o complexo em simples. Como atingir esse objetivo num país como o Brasil, dominado pela burocracia?

Sempre quando você cria uma solução extremamente inovadora e que simplifica algo, sempre o status quo vai querer ser mantido. Vai haver uma força muito grande para manter as coisas como elas estão. Isso é muito tradicional, histórico, sempre irá existir. Olhe como tentaram forçar contra o Uber no Brasil… não precisou mais pagar com dinheiro, tudo é muito rápido. No Brasil, vai haver uma barreira muito grande contra o empreendedor moderno, porque é uma sociedade tem um pensamento mediano.

Cite um de seus projetos de sucesso que pode servir de bússola aos jovens que escolheram o empreendedorismo como vocação

A XP, quando eu fui convidado pelos seus fundadores, Marcelo e Guilherme, para ser sócio da empresa, recebi a missão de atuar na gestão dos escritórios afiliados no Brasil, trabalhando tanto na gestão quanto na expansão da rede, rodei o Brasil, convenci empreendedores que tinham uma farmácia, um negócio a abrir um escritório de investimentos, bati na porta de muitos empresários e, assim, saímos de 20 escritórios quando eu entrei para 500 escritórios quando eu saí, depois de quase dez anos. É um excelente case, eu saí de Vacaria – RS no interior porque o maior risco estava em Porto Alegre, criamos um escritório lá, nasceu fora do eixo Rio-SP e se tornou a maior corretora do Brasil. O StartSE, transformamos uma empresa de Alfenas – MG, na maior plataforma para startups no Brasil.

Destaque um fator importante nesse processo…

O importante é a atitude do empreendedor, ralar muito. Isso é o que irá tornar o negócio inovador, e não o lugar onde estabeleceu. Sua atitude é o principal fator. E o livro Incansáveis, que em menos de um mês de lançamento, tornou-se o livro de negócios mais vendido do Brasil. Estou fazendo 35 eventos no Brasil, com estratégias de MKT digital, trabalhando pra caramba. Ou seja, é mais um exemplo que é realmente o trabalho duro que faz a diferença.

Qual a prioridade na hora de iniciar o negócio?

Validá-lo. O maior risco é começar a desenvolver um negócio e daqui a seis meses, quando estiver pronto, não ter nenhum cliente para consumir porque ninguém quer. Você deve desenvolver 1,2% do seu negócio e validar com o cliente, com os consumidores. E eles darão a resposta que você precisa para construir um negócio extremamente alinhado com o que o cliente quer. Hoje não se constrói mais algo para o cliente, se constrói com o cliente.

Qual a marca de um empreendedor de sucesso?

É aquele que enxerga oportunidade na barreira, que faz e não reclama, que enxerga horizontes e não desafios. A pessoa que tem essa visão, essa virtude de olhar um mundo sempre repleto de oportunidades. O empreendedorismo é uma atitude, não está ligado apenas à construção de negócios, aplica-se a tudo na vida. Na sua família, na sua vida. Você pode ser empreendedor como funcionário de uma grande empresa, onde você conduz a sua carreira, você leva a empresa, é o motorista, e não o passageiro. E também pode ser como criador do próprio negócio. Isso é o que está na marca dos grandes empreendedores que construíram carreira no mundo todo.

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