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Falta educação para consumir no Brasil

redacao 13/02/2012
redacao 13/02/2012

13|02|2012

A ascensão social impulsiona a economia do País, ao possibilitar a ampliação do consumo e do emprego. Nesse sentido, basta olhar ao redor para perceber uma certa euforia do varejo em relação à classe C, que em virtude de políticas de transferência de renda e do aumento do salário mínimo acima da inflação nos últimos anos mergulhou vorazmente no consumo dos mais variados produtos, de iogurte a celular e computador, passando pela TV de plasma e pelo automóvel, além da casa própria.

Segundo pesquisa recente, realizada por uma empresa de cartão de crédito, só em 2010, 19 milhões de pessoas ascenderam à classe C, que já soma mais de 50% da população. Isso significa que 100 milhões de pessoas ocupam essa faixa intermediária, mais que as classes A, B, D e E somadas.

Essas transformações nos permitem viver hoje o modelo de sociedade de consumo que os norte-americanos conheceram ainda na década de 1970. Lembrando que a abertura econômica do Brasil ocorreu há apenas 20 anos, quando experimentamos os primeiros ares da globalização.

Os bons ventos que tem proporcionado a muitos brasileiros realizar seus sonhos, porém, trouxeram também um mar de problemas. Nossa sociedade de consumo ainda é um embrião e por conta disso nem todos estão preparados para diferenciar consumo de consumismo, mantendo o controle diante do apelo de comprar hoje, sem saber se terá recursos para pagar amanhã.

Não é raro encontrar pessoas que quebrariam se perdessem o emprego, simplesmente porque comprometem toda a renda em prestações, e deixam de pagar as despesas essenciais. Vivemos um período de consumo competitivo (“eu sou o que tenho”) e de abuso do crédito, que é cada vez mais fácil. Isso tem contribuído para uma parcela crescente de pessoas experimentarem o gosto amargo dos problemas financeiros.

Nos Estados Unidos, jovens adultos estão começando a vida com mais dívidas no cartão de crédito do que qualquer outra geração. Em um país onde se esperaria mais maturidade nesse quesito, estima-se que 70% dos jovens norte-americanos nunca falaram com os pais sobre finanças pessoais. Um termo, ainda que forte, foi cunhado com base nessa realidade: “analfabetismo financeiro”. Por lá, concluiu-se que a saída para evitar o desequilíbrio econômico das próximas gerações é incluir a educação financeira no currículo das escolas, desde o ensino fundamental. Muitas organizações civis trabalham em parceria com o governo neste sentido, para que desde cedo os jovens entendam a importância de poupar para realizar seus sonhos.

No Brasil, o analfabetismo financeiro ainda passa de pai para filho. A inserção na sociedade de consumo veio desacompanhada da compreensão de que nem sempre querer é poder (pagar). Muitos brasileiros não sabem lidar com o dinheiro, por não terem recebido as informações nem na escola nem em casa para vencer as tentações de gastar demais e abusar do crédito, que hoje é abundante, mas ainda a taxas proibitivas.

É preciso achar um caminho urgentemente. Um deles é a educação, voltada não apenas ao planejamento financeiro, mas ao próprio planejamento de vida. Com a participação do governo e da sociedade em geral, é essencial preparar os professores para transmitir esses conceitos na fase de formação dos cidadãos. Ainda na escola a criança saberá o quanto é importante adotar uma postura responsável em relação ao consumo e crescerá entendendo as recompensas que o equilíbrio financeiro traz a curto, médio e longo prazos.

Não é só matemática, mas comportamento. O fator cultural também pesa contra nós. Embora o sistema público de previdência dê sinais de que teremos de trabalhar mais tempo para nos aposentar, ninguém duvida que o jovem dá mais status ao celular da moda que a poupar para garantir independência financeira ou tranqüilidade na velhice.

Nunca é tarde para buscar conhecimento e conscientização. Em geral, o consumidor não sabe calcular taxa de juros, apenas encaixa o valor da parcela na renda mensal ao optar por um financiamento. Uma conta que apesar de simples esconde armadilhas. Só para citar um exemplo, quem financia um automóvel a uma taxa de 1% ao mês em 60 meses, ao final do período terá pago dois. Se tivesse poupado, adiando o consumo pelo período para comprar à vista, teria o bem e ainda uma reserva em dinheiro.

A inadimplência afeta não apenas o indivíduo, mas o País, na medida em que obriga o uso de freios ao consumo para evitar a inflação, como o aumento dos juros, causando recessão e desemprego. É bom comprar, é bom vender, mas a melhor aquisição é aquela que respeita o orçamento e o padrão de vida de cada um. Aí sim, teremos adquirido a educação para consumir.

Alvaro Furtado é advogado e presidente do Sincovaga (Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo)

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