Última edição Edição 262 January 2017 Assine

Inventores desenvolvem produtos de grande retorno financeiro quando bem encaminhados ao mercado

redacao 28/03/2011
redacao 28/03/2011

Quanto vale uma ideia? No caso do OrthoMouse, inventado pelo médico cirurgião Julio Abel Segalle, 68 anos, vale a solução para um problema que já atinge mais de 1 milhão de pessoas só no Brasil: as lesões provocadas pelo uso contínuo de uma ferramenta “mal desenhada” para a mão humana, o mouse. Diferente dos
mouses tradicionais, o invento do doutor Segalle obriga e permite ao usuário a permanecer com a mão na posição correta, prevenindo doenças como tendinites.

No final de outubro de 2010, o médico – que é argentino mas vive no Brasil desde 1994 – recebeu o prêmio nacional Inventor Inovador na categoria Regional Sudeste, conferido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) no valor de R$ 120 mil e, em fins de novembro, o prêmio Finep Inventor Inovador Nacional no valor de mais R$ 120 mil. Segalle também já recebeu o prêmio “Best Inventor” outorgado pela Wipo (World Intellectual Property Organization).

Poucos inventores fazem tanto jus ao ditado “a necessidade é a mãe das invenções” quanto Segalle. Médico com dezenas de cirurgias de túnel do carpo no currículo, no final da década de 1990 ele percebeu que o que fazia tinha resultados que ele próprio chama de “catastróficos” para seus pacientes. Além de não curar, complicava ainda mais a lesão. “Decidi que nunca mais faria esse tipo de cirurgia, e como a medicina me ensinou que antes da cura vem a prevenção, resolvi pesquisar para ver o que era possível fazer para evitar a doença.” Foram seis meses de buscas por mouses adequados até a conclusão de que eles não existiam.

Segalle poderia ter parado por aí, mas decidiu seguir em frente com uma crença que hoje é o lema da Orthovia, empresa criada há dois anos e meio para montar e comercializar o OrthoMouse: todo produto, serviço ou ideia merece, pode e deve ser melhorado. O médico não teve um estalo como Arquimedes, que saiu nu pelas ruas de Siracusa gritando “eureka” (encontrei) depois que descobriu, em pleno banho, o princípio da hidrostática.Dez anos se passaram até a venda da primeira unidade, hoje comercializada para mais de 40 países com distribuidores em mais de 20 países. Aliás, 95% da produção é exportada. “No Brasil, nosso foco são pessoas físicas”, afirma o inventor.

Para criar seu invento, o médico se baseou num conceito clássico da ortopedia. Esse conceito diz que ao usarmos um instrumento de imobilização da mão, o único posicionamento permitido é a chamada “posição funcional”. “É baseada nessa lei que um médico imobiliza a mão de um paciente com gesso ou faixa. Ela é tão importante que, se ele o fizer fora da posição funcional, pode ser indiciado por erro médico”, ressalta Segalle. Para ele, o mouse é uma ferramenta de alto grau de imobilização e, portanto, seu desenho deveria respeitar esta lei da ortopedia. Foi a partir dela que o médico desenvolveu o OrthoMouse.  "Minha proposta era fazer um mouse que não só permitisse que a mão estabelecesse esse posicionamento, mas que a obrigasse a se posicionar desta forma”, relata Segalle.

Determinado, ele abandonou tudo – cirurgias e consultas – e transformou a cozinha do apartamento onde morava com a esposa e os dois filhos no laboratório do OrthoMouse. “Eu não conseguia pensar em outra coisa”, justifica. O primeiro protótipo foi feito com areia e cimento, mas três meses depois ele já tinha a forma que respeitava o conceito da ortopedia. O próximo passo era transformar “aquele pedaço de pedra” em um mouse eficiente. Não foi fácil. No caminho, Segalle encontrou engenheiros e designers que sempre sugeriam mudanças para deixar o invento “mais bonitinho”.


O problema é que as alterações comprometiam a proposta do médico. “Você prefere o mais bonitinho ou o que não faz mal para sua mão?”, argumentava Segalle. Finalmente, o invento se transformou num mouse funcional e o médico começou a testá-lo com pacientes. O retorno foi surpreendente. Além de trazer conforto aos usuários, o OrthoMouse ajudava a reabilitar pessoas que já tinham a lesão. “Eu fiquei arrepiado com esse resultado. Me senti um Louis Pasteur”, brinca.

Em 1998, Segalle depositou seu primeiro pedido de patente, que foi primeiramente concedida nos Estados Unidos, três anos e meio depois. “É a única patente do mundo de mouse ergonômico caracterizada por proteger a mão”, orgulha-se. Ele conta que, em 2002, foi convidado por uma gigante da informática a ir à sede da empresa apresentar seu invento. Ao final da reunião, foi informado de que a patente poderia ser engavetada caso a empresa decidisse comprá-la. Segalle argumentou sobre os benefícios do invento e conta que recebeu a seguinte resposta: “Nós somos vendedores de mouse muito bem-sucedidos e o que nos interessa é vender”. Ele saiu frustrado, mas ainda mais decidido a tocar seu projeto adiante por conta própria.

A Orthovia começou a produzir em séries de 75 unidades. Hoje, os lotes são de 5 mil, mas a meta já para o primeiro semestre de 2011 é duplicar as vendas com o lançamento de um modelo a laser  sem fio. Na sequência, Segalle pretende lançar um modelo para a mão esquerda e outro infanto-juvenil, estratégias que devem quintuplicar as vendas. Em breve, ele ainda pretende tirar da gaveta o projeto de um teclado ortopédico. “No momento estamos requerendo a patente, por isso ainda é sigiloso, mas será um produto de massa que vai multiplicar por dez nossas vendas”, calcula o médico.

Diferente dos mouses disponíveis no mercado, o OrthoMouse permite seis combinações diferentes para se adaptar ao tamanho da mão do usuário e ao tipo de função que ele desempenha. Tudo isso em um só produto. Segundo Segalle, essas possibilidades são fundamentais para garantir a saúde do usuário. Ele compara a um par de sapatos, em que escolhemos o número do nosso pé ao comprá-lo. O OrthoMouse é vendido no Brasil a R$ 199 e pode ser adquirido pelo site da empresa. Para quem acha o valor alto, Segalle responde: o antiinflamatório  custa mais caro.

Proteja seu invento

O que é patente?

É um monopólio de exclusividade, concedido pelo Estado, para o titular de uma criação suscetível de aplicabilidade industrial. Esse privilégio é reconhecido por meio de um documento chamado carta-patente.

Como requerer uma patente?

1. O primeiro passo é consultar bancos de patentes para ter certeza de que seu invento é realmente uma novidade, ou seja, se não está patenteado. Isso pode ser
feito no site do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) – www.inpi.gov.br – ou em portais como o www.patentesonline.com.br (nos dois bancos apenas
patentes brasileiras). O próprio Google também tem um mecanismo de busca por patentes, o www.google.com/patents, com mais de 7 milhões de registros do mundo inteiro.

2. Após a consulta, o inventor deve procurar o Inpi e escrever o pedido de patente, composto por requerimento, relatório descritivo, reivindicações, desenhos (quando
necessários), resumo e comprovante de pagamento da retribuição relativa ao depósito da patente.

Tipos de patentes

Patente de Invenção (PI) – produtos ou processos que atendam aos requisitos de atividade inventiva, novidade e aplicação industrial.

Modelo de Utilidade (MU) – objeto de uso prático, ou parte deste, suscetível de aplicação industrial, que apresente nova forma ou disposição, envolvendo ato inventivo, que resulte em melhoria funcional no seu uso ou em sua fabricação (inovação incremental).

Fontes: Inpi e Inventei! E agora? – Como ganhar dinheiro com uma boa ideia, de Carlos Mazzei

Comentar

Os itens com asterisco (*) são obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.