Última edição Edição 262 January 2017 Assine

Marcos Martins do Ibmec destaca que a qualidade dos empreendedores brasileiros pode ser melhor

redacao 09/10/2012
redacao 09/10/2012

No Brasil, 27 milhões de pessoas possuem seu próprio negócio ou estão envolvidas na criação de um. Atrás apenas da China e dos Estados Unidos, o País aparece em terceiro lugar no ranking de 54 países analisados pela pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2011 (GEM), realizada anualmente em uma parceria entre o Sebrae e o Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP).

Por outro lado, um levantamento do Sebrae aponta que 27% dos empreendimentos fecham as portas já no primeiro ano de atividade. Como o empreendedor deve agir para não fazer parte deste alto índice? Para o professor do MBA em Gestão de Negócios do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), Marcos Martins, a resposta constitui-se no principal diferencial para avançar a gestão do negócio próprio: o planejamento. “É necessário fazer um plano de negócios, e não simplesmente sair fazendo da própria cabeça”, destaca.

Na entrevista a seguir, Marcos Martins comenta quais as principais características que devem ser desenvolvidas para o empresário obter sucesso e o cenário do empreendedorismo no Brasil. Além de professor, ele é engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem uma sólida carreira em consultoria de mercado. Atuou na Prudential Bradesco Seguros, como gerente de vendas, e foi consultor corporativo da Mony Consultoria. Martins também é professor do MBA em Gestão de Negócios do Ibmec e instrutor do Empretec.

Recentemente, Martins e Fernando Alvite, sócios da empresa M11 Consultoria, desenvolveram uma ferramenta para auxiliar os empreendedores nessa atividade. Trata-se do Planeje-se, uma tecnologia, acessada pela internet, que indica opções de escolhas relacionadas a questões comuns do dia a dia corporativo, associadas às áreas de vendas, compras, administração, pessoal e finanças.

É possível uma pessoa se tornar empreendedor ou já se nasce com esse dom?
Marcos Martins – Pela nossa experiência e dezenas de estudos e casos reais, podemos dizer que, em tese, qualquer pessoa pode se tornar um empreendedor. Temos vários casos de pessoas que entraram cruas e depois se desenvolveram e estão muito bem porque o que caracteriza um empreendedor são comportamentos, que podem ser desenvolvidos e aperfeiçoados. Na década de 1980, a ONU promoveu uma pesquisa junto à Universidade de Harvard que identificou que empreendedores de sucesso têm comportamentos comuns. O que vai diferenciar se uma pessoa vai se tornar empreendedora ou não é o tempo que levará para desenvolver essas características.

O empreendedor brasileiro possui alguma característica que o diferencie dos demais?
Martins – Com certeza. O brasileiro tem características importantes, como a persistência, a independência e a autoconfiança. Mas, por outro lado, a capacidade de estabelecer metas e de planejar é algo muito fraco, o que acaba sendo ruim porque se gasta muito recurso e energia. Outra diferença é que o brasileiro, na busca por informações, prefere ficar de forma mais remota atrás do balcão ou pela internet, não fazendo isso de forma pessoal.

E quais são essas características?
Martins – Baseadas no estudo da ONU, são as seguintes: capacidade de estabelecer metas, de planejar, de monitorar sistematicamente, de buscar informações pessoalmente, de identificar oportunidades e ter iniciativa de estudar e implementá-las, de correr riscos calculados, de buscar qualidade e eficiência nos seus processos, de persuadir e formar redes de contatos; e a persistência, o comprometimento e a confiança.

Como a escola e a faculdade podem incentivar o empreendedorismo?
Martins – Se as instituições de ensino começarem a se preocupar em, junto às disciplinas tradicionais, levar esse lado empreendedor e prático aos estudantes o cenário do empreendedorismo no Brasil pode ser bem mais positivo. As faculdades são verdadeiros celeiros de conhecimento. O Ibmec, por exemplo, oferece dentro de todas as cadeiras uma disciplina de Empreendedorismo, que permite que os estudantes tenham alternativas para o seu futuro que não somente a carreira executiva. Mas tudo isso deveria começar lá na base, no ensino fundamental. Ainda que haja algumas iniciativas tímidas em alguns colégios, os poucos casos que acontecem são somente na faculdade. Ou seja, ainda há muito por trilhar neste sentido.

Mesmo assim o Brasil é um país empreendedor?
Martins – O Brasil vem ano a ano mostrando consistentemente que tem pessoas empreendendo, como mostra a pesquisa GEM. Se associarmos isso a melhores condições, como infraestrutura, educação, capacitação, o País vai passar por uma transformação ainda mais forte do que hoje em dia. 

Mas a carga tributária e a burocracia brasileira não impedem essa atividade?
Martins – Eu diria que não impede. As questões externas, como a falta de mão de obra especializada e a falta de política, dificultam sim. Mas o empreendedor que coloca seus comportamentos em prática vai superar tudo isso com planejamento, cálculo de risco, estratégias, pessoas, e vai fazer acontecer.

Qual o papel principal das incubadoras tecnológicas nesse apoio?
Martins – Elas exercem um papel fundamental no que se refere a iniciativas de jovens – no ato de empreender – estudantes e professores em trazer o seu conhecimento técnico e transformá-lo em negócios. É muito comum que esse público conheça profundamente seu ambiente, mas não tenha o lado da gestão de outras competências inerentes a qualquer um que queira montar um negócio, como conhecimentos na área operacional e marketing. O papel da incubadora é dar não só esse apoio, mas principalmente ajudar esses potenciais empresários a preparar um negócio para a competição séria que o mercado exige. Assim, você lida com o que há de mais avançado em termos tecnológicos, aproxima essas pessoas e consegue ajudá-las a estruturar o negócio com mais chance de sucesso.

Que conselho o senhor daria para alguém que está pensando em empreender hoje?
Martins – Eu diria para buscar informações não só do negócio que pretende abrir, mas também conhecer o mercado, os fornecedores, seu público-alvo. Além disso, estudar, organizar as ideias para que a empresa não feche em um curto espaço de tempo, como acontece com muitas até com menos de um ano de vida. É mais do que certo que o ato de planejar ajuda a aumentar, em média, 60% a chance de sucesso de um negócio. Quer ter 60% a mais de chance de ter sucesso? Então planeje.

Comentar

Os itens com asterisco (*) são obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.