Os dois lados das finanças

redacao 13/05/2011
redacao 13/05/2011

Já percebeu que tudo, tudo mesmo, envolve alguma quantia de dinheiro? Uma música do Silvio Brito diz: "tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver, tem que pagar pra morrer". Mas o que fazer para não faltar dinheiro em nenhuma fase de sua vida? Primeiro, precisamos compreender como as finanças permeiam os diferentes momentos de nossas vidas.

Deixadas de lado atrocidades como o trabalho infantil, situação de muitas crianças, desde o nascimento até a infância, somos incapazes de gerar renda. Dentro da normalidade de uma sociedade civilizada, toda a infância e grande parte da vida de um jovem são destinadas a consumir recursos sem que se produza nada, ou produzindo muito pouco frente ao que é demandado. As finanças desta fase podem ser encapsuladas na seguinte fórmula: Demandas Pessoais ≥ Receitas de Provedores. Os provedores são os pais, os familiares ou mesmo o governo e entidades que cuidam de crianças e jovens carentes.

Na juventude, existe uma demanda chamada "educação formal" que irá preparar o indivíduo para ser independente de provedores. Ou seja, prepará-lo para o trabalho remunerado. Neste estágio, a fórmula que nos mostra o fluxo de finanças pessoais deveria ser a seguinte: Receita de Trabalho ≥ Demandas Pessoais. Perceba que as demandas do indivíduo passaram para o outro lado da fórmula e que outros provedores sumiram da mesma. Isso ocorre quando, e somente quando, o indivíduo se torna independente de seus pais, ou de quem quer que seja. Concordo que a mudança é paulatina e não abrupta na maior parte dos casos. E assim deve ser. Os laços, suavemente, são cortados e o filhote deixa o ninho.

Já independente, as finanças saudáveis de um indivíduo devem agregar outro tipo de receita. A receita de juros. Com isso, temos a seguinte fórmula para as finanças pessoais dos que enriquecem: Receita de Trabalho + Receita de Juros ≥ Demandas Pessoais. Veja que as demandas pessoais correspondem a tudo aquilo que consome dinheiro, em maior ou menor quantidade, sendo o necessário ou o supérfluo.

Ao final da vida voltaremos a não mais trabalhar. Acredito que poucos sonham morrer em seus escritórios ou consultórios. Portanto, para abdicar da receita do trabalho seu patrimônio deve ser grande o suficiente para que a receita de juros supere suas demandas pessoais na terceira idade. Nesta fase, é de se esperar que a fórmula – considerando os idosos que fizeram sua lição de casa em educação financeira – fique assim: Receita de Juros ≥ Demandas Pessoais. Ou seja, não é preciso mais trabalhar de forma remunerada para manter o mesmo padrão de vida.

O que mostrei até aqui é o mundo perfeito. No entanto, existe um mundo financeiro mais realista e cruel. Dados oficiais mostram que somente 1% dos aposentados no Brasil alcança a condição de manterem-se inativos e com o mesmo padrão de consumo de quando trabalhavam.

A chave para a mudança é manter os juros do lado das Receitas, evitando que se tornem mais uma demanda. Ao consumir um refrigerador, imóvel, automóvel, ou qualquer produto pagando em X "parcelas que cabem no bolso", você pagará juros e sua fórmula fica da seguinte maneira: Receita de Trabalho ≥ Demandas Pessoais + Despesas de Juros.

Veja que pagar juros não é uma demanda natural do indivíduo como beber água, alimentar-se ou viver sob um teto digno. Pagar juros é uma escolha, diga-se tão ruim quanto consumir drogas ou comer ou beber em demasia.

Ao escolher qualquer crediário, você trabalhará MAIS para pagar a nova despesa (dos juros) ou te sobrará menos para suas demandas pessoais – uma vez que sua renda não aumentou. Trocando em miúdos, se você anda de carro, por que paga pelo carro com juros? Os juros levarão seus filhos à escola? Se você conserva seus alimentos na geladeira, por que pagar pela geladeira com juros? Os juros deixarão sua cerveja mais gelada?

O mundo das finanças é dividido em dois lados. O lado dos que pagam juros e o lado dos que recebem juros em suas aplicações financeiras. Decidir em qual lado ficar é a escolha que fará toda a diferença.

Mauro Calil é educador financeiro e autor do livro "A receita do bolo". www.calilecalil.com.br

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