Os muitos patrões do CEO

24|08|2011

Em um passado recente, chargistas de jornais, especialmente de publicações sindicais, costumavam retratar o “patrão” como um capitalista de fraque e cartola, fumando um charuto e sendo carregado por um bando de trabalhadores explorados. A visão simplista e panfletária até fazia sentido, pois era fácil identificar o patrão, ou seja, o dono da empresa, que personificava o explorador e era responsabilizado pelas más condições de trabalho, pelos salários baixos e outras maldades.

Com as mudanças vertiginosas ocorridas na economia mundial nas últimas décadas está cada vez mais difícil personificar o patrão. Sabe-se, sim, quem são os controladores do negócio, mas, em muitos casos, não é uma pessoa ou uma família.

Tome-se o exemplo da Vale, maior empresa privada brasileira e uma das maiores mineradoras do mundo. Juntos, os fundos de pensão e o governo, via BNDES, têm o maior número de ações da Valepar, que detém cerca de 53% do capital votante da Vale e quase 34% do capital total. Além disso, a empresa tem participações da Bradespar, da Mitsui, de outros investidores institucionais e milhares de acionistas no Brasil e no exterior. Quem é o “patrão” na Vale?

Algumas empresas são controladas por fundos de investimentos ou fundos de private equity, que têm participação em empresas de capital fechado. Os private equity, por sua vez, são turbinados por investidores institucionais, como os fundos de pensão, que reúnem milhares de trabalhadores. Como se vê, será difícil dar uma feição nessas empresas ao tal capitalista de fraque e cartola fumando charuto.

É claro que, nas lides sindicais, o CEO, como principal executivo da empresa, é considerado o representante do capital e, portanto, o responsável pelo não atendimento das reivindicações trabalhistas. O irônico da situação é que, numa empresa como a Vale, decisões empresariais em favor do acionista estão beneficiando os trabalhadores que participam dos fundos de pensão. Sem dúvida, um dilema para marxistas empedernidos.

Nesse novo mundo corporativo, os altos executivos passaram a ter mais uma preocupação: conciliar os interesses dos acionistas, representados nos Conselhos de Administração. À vezes, não é uma tarefa fácil, pois os interesses de acionistas de diferentes perfis podem ser conflitantes.

Numa empresa familiar, o principal executivo segue as orientações do dono ou controlador do negócio. Geralmente há uma grande proximidade e afinidade entre eles, o que facilita o processo de tomada de decisões. Além disso, há menor probabilidade de contestação das decisões dentro da empresa.

Em empresas com composições acionárias mais complexas, o trabalho do CEO é também mais complexo, pois ele precisa gerenciar também o relacionamento entre os vários grupos de acionistas (governo, fundos de pensão, empresas privadas, outros investidores institucionais, acionistas individuais nacionais e estrangeiros), administrar eventuais conflitos de interesse e remover obstáculos para a tomada de decisões. O CEO teve desenvolver qualidades de um verdadeiro diplomata, para não ser acusado de tentar beneficiar um dos grupos de acionistas em detrimento de outros.

Na atual fase do capitalismo brasileiro, o Estado, tanto diretamente por meio do BNDES, ou indiretamente, por meio dos fundos de pensão, tem participação em grande número de empresas. Obviamente, o governo procura influenciar decisões das empresas na qual tem ações, defendendo posições quem nem sempre são do interesse de outros grupos de acionistas.

Isso exige do CEO um grande jogo de cintura para não ser defenestrado do cargo por não atender aos interesses de certos acionistas.

Marcelo Mariaca é presidente do Conselho de Sócios da Mariaca e professor da Brazilian Business School.

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