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Prioridades versus posterioridades

redacao 02/02/2012
redacao 02/02/2012

02|02|2012

“Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” é um provérbio muito difundido que nos alerta contra a tendência à procrastinação e a necessidade de adotarmos prioridades.

“Não faça hoje o que só pode ser feito amanhã” é outro provérbio, não tão conhecido, que aponta para um perigo inverso: a ansiedade que nos leva a tentar fazer no presente algo cujas variáveis ainda não estão em nosso controle e, em decorrência, a necessidade de estabelecermos posteridades.

Estas duas premissas, aparentemente antagônicas, na realidade são complementares e, se bem administradas, contribuem para uma boa qualidade de vida.

O que valida ambas as premissas são as propriedades que caracterizam o tempo:

  • Pode ser perdido – nunca recuperado.
  • Não podemos: alugar, comprar, estocar, fabricar, congelar, ou enlatar tempo.
  • Só nos cabe aproveitar ao máximo cada oportunidade.
  • O tempo é o único recurso totalmente socializado: todos têm as mesmas 24 horas por dia: homens e mulheres, ricos e pobres, velhos e crianças, reis e plebeus.
  • O que diferencia uma pessoa das outras é o uso que faz deste recurso, cada vez mais escasso.

Pois é exatamente em função da exiguidade do tempo disponível que precisamos ser criteriosos na maneira de selecionamos as nossas atividades.

Quando ouço alguém dizer: “Não tenho tempo para…”, concluo que a respectiva atividade não é PRIORITÁRIA para essa pessoa, pois normalmente arranjamos tempo para nos dedicar àquilo que consideramos prioritário. Assim, se deixamos de fazer isto ou aquilo, não é por falta de tempo, mas sim em função de nossas escolhas.

Eis outro dilema: sempre que escolhemos nos dedicar à alguma atividade, invariavelmente, estamos abrindo mão de alternativas que, eventualmente, poderiam ocupar nosso tempo.

À própria palavra DECIDIR, em sua origem etimológica, significa: MATAR ALTERNATIVAS. Ou seja, para tomarmos uma decisão é preciso abrir mão das outras opções que concorrem pela nossa atenção.

Assim, boas decisões, trazem sensações agradáveis, em decorrência de estarmos investindo bem nosso tempo. Já, decisões equivocadas provocam sentimento de culpa e arrependimento pelo mau uso de nosso tempo.

Ocorre que a constatação de acerto ou erro no emprego de nosso tempo nem sempre é imediata. Pode-se dar o caso em que as consequências de nossas decisões só venham a ser sentidas muito depois de um fato ocorrido. Mais uma razão para estabelecermos critérios no processo do que deve ser priorizadoe o que deve ser posteriorizado.

Gostaria de exemplificar esta questão com uma experiência que vivi:

Em dezembro de 1981 mudei com minha família para um condomínio residencial em Vargem Grande Paulista, região da Grande São Paulo.

Na época, muita gente me criticou por optar morar fora de São Paulo, tendo de gastar aproximadamente duas horas ao me deslocar de carro, diariamente, no trajeto de ida e volta do trabalho. Entretanto, encarei este desafio como investimento, considerando que meu objetivo foi proporcionar melhoria na qualidade de vida para minha família, principalmente para quatro filhos que, à época, tinham entre 5 e 10 anos.

Tal mudança de residência coincidiu com uma alteração em meu esquema de trabalho, pois nos sete anos anteriores eu viajara, em média. duas semanas por mês para dar treinamento em hotéis fora da cidade de São Paulo, saindo aos domingos e retornando apenas na sexta seguinte.

Por conta das inúmeras viagens, deixei de acompanhar diversas evoluções na vida de meus filhos, pois ao retornar, após cada semana de ausência, era comum que algum deles tivesse feito progressos, como, por exemplo, deixar de usar fraldas, ou chupetas, começar a engatinhar, andar, ou ainda, começar a falar, entre outras proezas típicas da infância. Minha esposa frequentemente me alertava que eu estava me tornando um ilustre desconhecido para meus filhos, com a agravante de que eles já estavam preferindo me ver pelas costas, uma vez que, por sentimento de culpa, invariavelmente eu lhes trazia lembrancinhas ao regressar de cada viagem.

Como estava descontente com aquela situação aproveitei uma crise econômica na conjuntura brasileira e propus à diretoria da empresa em que trabalhava para deixar de dar treinamentos fora da cidade de São Paulo, com o objetivo de economizar as despesas com deslocamentos e hospedagens. Aceita minha sugestão, a partir do término de cada expediente, passei a ser um cidadão comum, com direito a conviver normalmente com minha família, o que até então não tinha sido possível.

Foi aí que recebi um convite para trabalhar como consultor em uma grande consultoria brasileira. O sócio que me convidou perguntou quanto eu estava ganhando. Ao lhe responder ele disse: eu triplico o valor do seu salário. Em seguida perguntou-me quantos reajustes eu tinha por ano. Ao dizer que só uma vez ao ano, ele afirmou que eu passaria a ter reajustes mensais (importante lembrar que o Brasil naqueles anos vivia um cenário altamente inflacionário). Tal proposta soou como música aos meus ouvidos, pois viria melhorar significativamente meu poder aquisitivo, bastante restrito tendo em vista o compromisso de compra da casa própria que acabara de assumir. Mas, partindo do princípio de que “quando a ajuda é demais o santo desconfia”, perguntei-lhe qual seria a contrapartida àquela proposta de trabalho.

A resposta dele foi: “você vai trocar a mala de roupa suja pela mala de roupa limpa com sua mulher, no aeroporto, porque vai ter que viajar adoidado”. Tal hipótese foi um verdadeiro balde de água fria na fervura. Com um aperto no coração, afirmei-lhe que, diante da necessidade de viajar, eu não era a pessoa certa, esclarecendo-lhe que nos últimos sete anos havia enfrentado um esquema semelhante e que, naquele momento, havia me proposto junto à minha esposa a acompanhar de perto a educação de meus filhos. Ele ainda insistiu em que eu estaria perdendo uma grande chance. Mas, mesmo concordando de que se tratava de uma proposta tentadora, mantive minha decisão.

Não obstante eu ter recusado, aquele convite teve o poder de inocular em mim o desejo de um dia trabalhar em consultoria.

A partir daí, passei a me preparar com diversas providências, como participar de associações de classe, investir ainda mais em reciclagens visando ao meu aperfeiçoamento, aumentar meu networking e começar a ministrar treinamentos fora da empresa em que trabalhava nos momentos de folga.

Decorridos 12 anos daquela conversa, considerei que já estava maduro para realizar aquele projeto de trabalhar em consultoria.

Apresentei, então, minha carta de demissão ao presidente da empresa em que trabalhava e negociei minha saída.

Por uma questão de gratidão àquele sócio da consultoria que tinha me aberto os olhos para tal possibilidade, foi ele a primeira pessoa, fora de meu círculo familiar, com quem partilhei tal decisão. Seu comentário foi: “você está uns 10 anos atrasado nesta sua iniciativa”. Minha resposta foi que não me considerava atrasado, pois nestes doze anos eu tinha investido no relacionamento com os filhos e na convivência familiar. Agora, considerando que os meus filhos já estavam em outro estágio de vida, podia me dedicar a um trabalho que necessitasse de viajar, sem sentimentos de culpa ou prejuízos no relacionamento com eles.

Conclusões:

1 – “Para tudo há uma ocasião certa”. “Há tempo para todo propósito de baixo do céu”. Rei Salomão (Eclesiastes 3:1)

2 – O uso adequado de nosso tempo implica na adoção de critérios que nos permitam PRIORIZAR algumas atividades em detrimento de outras que devem ser POSTERIORIZADAS.

3 – É comum ouvimos alguém dizer: Gostaria de fazer melhor uso do meu tempo. Raramente ouvimos: Gostaria de me disciplinar para controlar melhor a mim mesmo.

4 – Está mais do que provado que TEMPO náo é DINHEIRO. TEMPO é VIDA!

5 – Para auxiliar no processo de escolha do que deve ser PRIORIZADO ou POSTERIORIZADO, vale lembrar a oração da serenidade, dos AA:“Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".

Américo Marques Ferreira é Consultor Sênior do Instituto MVC

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