Só startups criam rupturas

Presidente da ABStartups, Amure Pinho, avalia que novas empresas estão transformando mercados tradicionais

Raquel Pazotti 13/06/2018
Raquel Pazotti 13/06/2018

O grande sonho de muitos jovens, hoje em dia, é criar uma startup. Seja para vendê-la por muitos milhões depois, para ser reconhecido ou mesmo para dar sentido à própria vida e fazer de sua startup uma empresa que vai resolver grandes problemas e entregar alto valor para a sociedade. De fato, o mercado de startups vem crescendo muito nos últimos anos no Brasil e ganhando cada vez mais importância. E para ajudar a entender melhor como funciona esse universo, a ABStartups (Associação Brasileira de Startups) foi criada com a união de vários empreendedores que têm o objetivo de desenvolver uma frente de trabalho mais coesa para atuar em prol das startups brasileiras, gerando uma rede de conexões para aprendizado, fomento e geração de oportunidades para os associados.

À frente da ABStartups, está o publicitário Amure Pinho, que também é empreendedor e  investidor-anjo. Na entrevista abaixo, ele fala sobre os maiores problemas enfrentados hoje pelas startups brasileiras, comenta sobre o potencial do Brasil para inovação e dá dicas para empreendedores que sonham em começar uma empresa disruptiva de base tecnológica.

1) Percebe-se que o número de startups cresce a cada dia no Brasil. Como você vê essa expansão?

Estamos atingindo um momento em que todos os empreendedores estavam procurando. De certa forma, criar uma ruptura em mercados tradicionais de diversas áreas como saúde, educação, logística, financeiro, entre outros, é muito positivo. Isso mostra que as startups são mais ágeis e estão conseguindo responder às demandas básicas de tantos âmbitos esquecidos em um país com tantos desafios e a economia sendo deixada de lado. Nesse cenário, os empreendedores estão fazendo acontecer. Quando tudo estava e está em certo caos, as startups brasileiras estão “indo muito bem, obrigado”.

2) Como a ABStartups trabalha para ajudar as startups?

Trabalhamos, essencialmente, em três frentes: 1) Informação: organizamos a informação sobre o mundo das startups, somo como um hub, pegamos o que acreditamos e que achamos positivo ao ecossistema das startups e divulgamos para que todos tenham acesso à mesma informação e ao mesmo tempo. Pois, atualmente, existe muita gente falando sobre o tema e isso pode gerar ruído. Então, a ABStartups é uma espécie de guardiã da informação e faz isso de forma institucional. 2) Promoção: criamos o maior evento de startups da América Latina, o Case (Conferência Anual de Startups e Empreendedorismo), no qual cerca de 6 mil participantes entre CEOs, investidores e empresários participam para fazer negócios e discutir sobre inovação, tecnologia e mercado. 3) Impacto empreendedor: pensamos em gerar impacto no longo prazo no país. A inovação acontece em qualquer lugar e o ativo do Brasil é a diversidade e a geografia e precisamos levar oportunidade para todos os locais e espaços. E uma das nossas missões é empoderar as comunidades espalhadas pelo Brasil. Fazemos visitas nessas comunidades, colocamos as informações para elas entenderem em que situação elas estão. Muitas delas são evoluídas, outras não. E nesse panorama, criamos um ecossistema de apoio a elas. Todo mundo precisa de um ecossistema. E as startups hoje são o motor da economia brasileira. E assim seguimos: olhando sempre para o próximo nível.

3) Qual é o maior problema enfrentado hoje pelas startups para alcançarem o sucesso?

São grandes os desafios enfrentados por elas. A começar pela legislação que precisa estar adequada para as características diferentes que as startups têm. Os governos precisam entender que as startups são muito importantes para geração de riquezas e elas são negócios de alta velocidade, escaláveis e com pessoas mais jovens na liderança. Acesso ao capital é o segundo desafio a ser enfrentado. As startups buscam um modelo de negócio repetível, escalável e com base tecnológica. Essencialmente, são grandes inovadoras. Elas precisam criar tecnologia e isso leva tempo e durante o processo precisam de capital e acabam sofrendo muito com a falta dele. Se compararmos com Israel, EUA e Europa, neste sentido, o Brasil está atrasado. Pois, em nosso país, o empreendedor precisa ter lucro já no primeiro dia. Ele não tem folga para criar e desenvolver a tecnologia, precisa lançar e já lucrar. O desafio cultural também atrapalha, porque as pessoas precisam entender e olhar as startups como empresas sérias. E, existe ainda o problema da falta de infraestrutura no quesito de aeroportos, acesso e qualidade da internet e logística. Se comparar com os EUA, por exemplo, o empreendedor lá tem muito mais oportunidades de inovar. Parece que estamos sempre subindo uma escada rolante ao contrário.

4) Segundo alguns números, apenas uma em cada quatro startups sobrevivem aos cinco primeiros anos?

Acredito que esse número foi bem conservador. Eu diria que uma a cada 10 startups morre nos primeiros cinco anos. A cada startup que abre um CNPJ, a chance de sobreviver é de 10%.   

5) Pesquisas apontam que, no Brasil, só as scale-ups são responsáveis por 50% dos novos empregos. O número de investidores vem aumentando?

Por certo período durante a crise econômica pode ser verdade. Algumas startups como a 99taxi, RD Station, Conta Azul e Hotmart ofertam constantemente muitas vagas de trabalho. E acredito que estes números podem se aplicar nos pequenos e médios negócios sim. Sobre o número de investidores, os anos de 2016 e 2017 foram muito positivos e vimos um aumento de capital grande. O ano de 2018, porém, começou mais tímido.

6)Você acredita que o Brasil pode mesmo se tornar uma das cinco maiores potências em inovação e empreendedorismo tecnológico? Por quê?

Temos potencial para estar entre os top 5 ou top 10 do mundo. Na América Latina, somos os principais. Já no contexto europeu e asiático, estamos muito atrás. Israel, por exemplo, é uma potência e tem o tamanho de São Paulo. Até agora, EUA é o número um, depois vem a China, Israel, Inglaterra, Holanda. O Brasil aparece entre a posição 15 e 20. Calculo que daqui a 20 anos, o Brasil poderá ser uma potência. Isso porque temos um mercado interno gigantesco e a capacidade de adaptabilidade do brasileiro de resolver problemas complexos de forma simples são nossos diferenciais. Empreendedorismo é um forma de ultrapassar limites e se conseguirmos vencer alguns desafios, certamente, podemos virar uma coisa global e devorar mercados.

7) Qual é o perfil geral e/ou predominante de empreendedores que começam uma startup?

Em geral são mais jovens, perto dos 30 anos. A faixa etária fica em média entre os 25 anos a 40 anos. As startups com mais êxitos são lideradas por pessoas em sua plena vida adulta, vida produtiva. É predominantemente masculino, mais de 75% são homens. E, estão mais concentradas nas capitais.

8) Quais orientações você poderia dar para empreendedores que querem começar sua startup?

Participar do evento Case (Conferência Anual de Startups e Empreendedorismo). Quem vai tem a oportunidade de mergulhar na jornada empreendedora de montar uma startup. Além disso, hoje tem muito conteúdo de alta qualidade disponível. Recomendo a leitura de alguns livros como o “10 mil Startups” do Felipe Matos e “Pense Simples” do Gustavo Caetano. Depois de passar essa fase de conteúdo, oriento que o futuro empreendedor de startup comece a observar para descobrir um problema, às vezes, é um problema que ele mesmo está passando, está sofrendo. E a partir disso, ele pode encontrar uma solução e desenvolver algo conectado com essa solução para sarar essa dor e entregar valor à comunidade/sociedade.

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