Betina Ramos

Empreendedora desenvolve nanotecnologias e fez parceria com a Malwee para lançar linha fitness com efeito hidratante

Por Raquel Rezende 10/04/2014
Por Raquel Rezende 10/04/2014

Roupas com cápsulas hidratantes que em contato com a pele liberam partículas que hidratam o corpo e duram até 20 lavagens não é um produto tão futurístico assim. Já é possível encontrar essas novas peças têxteis fabricadas pela Malwee, indústria têxtil catarinense, em parceria com a Nanovetores, empresa inovadora, especializada em desenvolver insumos industriais encapsulados de alta tecnologia. E quem trouxe essa inovação para a Malwee foi a Dra. Betina Giehl Zanetti Ramos, diretora técnica da Nanovetores, especialista em sistemas de encapsulação. Mas até concretizar uma de suas melhores criações, Betina percorreu um longo caminho que começou na infância, quando já se sentia atraída pelos experimentos que ela mesma criava com plantas.

Com o passar dos anos, o gosto pela área científica foi só aumentando. E depois de terminar a graduação em Farmácia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e voltar da França com um doutorado, Betina quase aceita o chamado de um concurso público para atuar na área acadêmica, quando o lado empreendedor do seu marido, Ricardo Henrique Ramos, a influencia para arriscar e tentar colocar as suas ideias no mercado. Por causa disso, nasceu a Nanovetores, em 2008, em Florianópolis. Hoje, a empresa tem como clientes duas grandes multinacionais do setor de cosméticos e coleciona prêmios de reconhecimento pelos produtos inovadores que lança no mercado.

Betina conta que sempre gostou de farmácia e sua trajetória foi com foco em pesquisa. Ela se imaginava atuando no meio acadêmico e quando voltou da França, fez dois concursos, um deles passou e não foi chamada, e outro passou e foi chamada. “Mas quando fui chamada, fiquei em uma encruzilhada e optei por começar a empresa, por causa da vocação empreendedora do meu marido, que sempre trabalhou com empreendedorismo”, lembra. Apesar do incentivo do marido ter sido decisivo, Betina afirma que o interesse da banca do doutorado pela sua tese despertou nela a vontade de pesquisar mais sobre como lançar a tecnologia no Brasil. “Fomos juntos buscar e pesquisar sobre a tecnologia de encapsulados e percebemos que no Brasil existia, mas era importada. Assim, percebemos que era algo inovador e que tínhamos encontrado um nicho de mercado. A partir daí, o plano de criar a empresa foi ficando mais forte”, relata.

A Nanovetores começou com três funcionários, hoje são 23 O marido de Betina, que é formado em Administração, teve a ideia de buscar uma incubadora para instalar a empresa, pois já conhecia os benefícios da incubação. Depois de passar por vários processos seletivos, conseguiram ser aceitos no Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas (Celta), em Florianópolis, que além da estrutura física, forneceu diversos serviços necessários para uma empresa começar e, ainda, networking com outras empresas que estão na mesma situação. “Essa sinergia foi interessante para o crescimento da empresa e fundamental para o trabalho avançar”, afirma Betina.

Para produzir o portfólio de produtos, Betina e seu marido precisavam de dinheiro e foram buscar na Fundação de Amparo à Pesquisa de Santa Catarina (Fapesc), por meio de um edital. Com os recursos do primeiro edital conquistados, Betina aprimorou os produtos com o propósito de lançar no mercado. “No começo foi difícil, mas quando participava de feiras de negócios, percebia, cada vez mais, que havia demanda para os produtos que desenvolvia em minhas pesquisas. E por causa disso, meu lado empreendedor também foi despertando com os contatos de mercado. Além disso, eu acho que transmitia a empolgação dos resultados de minhas pesquisas e, assim, cativava os compradores”, diz.

Em seu doutorado que fez pela UFSC e pela Université Bordeaux 1, na França, Betina observou o sucesso dos cosméticos têxteis franceses e imaginou esse mesmo produto sendo fabricado no Brasil. Com o plano em mente, ela começou a desenvolver os protótipos internamente e apresentou os resultados do seu invento em um simpósio de nanotecnologia. Nesse evento, os representantes da Malwee se interessaram pelo produto e propuseram uma parceria. Assim, a Nanovetores trouxe os ativos e a Malwee foi testando nas roupas até chegar ao produto final. “Agora já conhecemos todo o processo e as possíveis limitações”, relata Betina. Ela acrescenta que da matéria-prima até a aprovação do produto são necessários de um a dois anos. “Esse ano, especialmente, foi incrível para a empresa, pois participamos da maior feira de cosméticos do mundo em Paris. E os negócios estão ampliando muito bem na linha têxtil”, comemora.

Para Edmundo Barbosa da Silva, coordenador de inovação tecnológica da Malwee, a Nanovetores aceitou o desafio de desenvolver produtos nanoencapsulados com aderência a têxteis, uma das grandes fronteiras da tecnologia na área. Depois de meses de pesquisa, foi certificado um primeiro produto, o hidratante, com eficácia comprovada mesmo depois de 20 lavagens. “Esta inovação vem ao encontro da valorização da essência brasileira visualmente encontrada nas coleções da Malwee e aliada à tecnologia nacional, desenvolvida pela Nanovetores”, enfatiza Edmundo. Ele explica que as malhas com hidratante entram em processo de produção convencional e, após o tingimento, recebem a aplicação do material composto de nanocápsulas, que contém hidratantes em seu interior. Durante o uso, pela fricção da roupa na pele, ocorre a liberação do hidratante. Este benefício foi comprovado em testes clínicos realizados pela Allergisa, laboratório credenciado pela Anvisa. As peças com a tecnologia entram em duas linhas: Malwee Grandes Abraços e Malwee Fitness.

Antes de lançar produtos na área de encapsulados cosméticos para a indústria têxtil, a empresa de Betina desenvolveu, por exemplo, o Nanovetor DMAE, um encapsulado que potencializa a ação tensora desse ativo na pele e o Nano Liss, que promove efeito disciplinador e liso dos fios de cabelos, entre outros inúmeros produtos cosméticos que incluem as linhas capilar, corporal e facial. “A tecnologia de encapsulamento protege as substâncias de ações naturais como a oxidação, elevando a eficácia em diferentes segmentos de produtos”, explica Betina.

Ela esclarece ainda que os produtos Nanovetores utilizam elementos em sua composição que auxiliam na preservação da natureza e, além disso, a empresa não realiza testes em animais. “É um diferencial para a empresa trabalhar com nanotecnologia, sem usar química. E essa ação de trabalhar com processos sustentáveis é uma característica marcante que acompanha a trajetória da Nanovetores”, observa. Atualmente, a Nanovetores tem cerca de 400 empresas cadastradas com interesse nos mais de 30 produtos inovadores desenvolvidos em seus laboratórios.

Betina revela que o crescimento exponencial da Nanovetores aconteceu no ano passado. No início de 2012, a empresa tornou-se uma sociedade anônima (S.A.), e, através de um fundo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), conseguiu fomentar a parte comercial e registrar nove patentes. “Chegamos em uma fase que nos tornamos referência no mercado e isso estamos buscando há muito tempo”, revela Betina. Segundo ela, quando se trabalha com inovação, deve-se convencer o cliente que o produto realmente funciona. E que foi com muito trabalho que conseguiram conquistar clientes e atingir o patamar de sucesso alcançado pela Nanovetores. “Dividimos bem o trabalho. Eu cuido da parte técnica e o Ricardo trabalha na prospecção de clientes e exerce o cargo de presidente da empresa. Mas, mesmo assim, temos uma rotina árdua: após oito horas de trabalho, ainda levamos questões para resolver em casa”, conta. Além disso, ela enfatiza que a empresa tem funcionários dedicados. Em 2008, a Nanovetores começou com três funcionários, hoje são 23 que compõem a equipe.

Grande parte dos maiores clientes da empresa está sediada em São Paulo. E para atender esses clientes, que são da área cosmética, a empresa tem um profissional que atua na função de diretor comercial na cidade. No polo têxtil, em Blumenau, também atende diversos clientes. E o consumidor final vai encontrar somente o ativo da Nanovetores nos produtos, conforme se pode observar nas peças da linha fitness da Malwee.

Agora, a Nanovetores se prepara para deixar a incubadora Celta e seguir trabalhando na sede própria, localizada no Sapiens Parque, em Florianópolis (SC). “A fase mais difícil foi o início, quando é necessário convencer os clientes que o produto é interessante. Agora estamos com foco no crescimento da empresa”, comenta. Betina destaca ainda que com o aumento do portfólio de produtos, a comercialização também se intensifica, e nesse sentido é interessante firmar parcerias com outras empresas. Ela atribui o sucesso da Nanovetores a muito esforço, dedicação incansável na busca dos objetivos e a persistência.

Betina também dá palestras nas universidades para contar sua trajetória e incentiva os estudantes a ter coragem para empreender. Ela reconhece que a ideia mais óbvia para um universitário, principalmente das áreas de pesquisa, é permanecer no meio acadêmico, mas alerta que esse ramo está saturado e o País está carente de ter bons profissionais à frente das empresas. “É importante tentar, arriscar, pois muitas ideias interessantes podem gerar um produto.”

Abraço à inovação

O coordenador de inovação tecnológica da Malwee, Edmundo Barbosa da Silva, destaca que a inovação acompanha a Malwee desde a sua constituição. A preocupação com o meio ambiente levou a empresa a criar roupas com o foco na sustentabilidade. E procurando atingir esse objetivo, foram produzidas peças de forma inteligente, entre elas, a exclusiva meia-malha Brasil, composta pela Fibra Brasil, oriunda do reaproveitamento das fibras de bananeira; a malha desfibrada, que em sua composição mistura novas fibras de algodão, resíduos de malha e poliéster PET; o jeans lavado com ozônio, que reduz a utilização de produtos químicos, focando nos processos manuais e dispensando totalmente o uso da água e ainda o jeans sustentável, que reduz em até 40% o consumo de água durante o processo de tingimento.

O desenvolvimento de roupas com malhas funcionais veio para ampliar a gama de produtos inovadores da Malwee. Vestir uma roupa produzida a partir de malha funcional, com exclusiva tecnologia, que hidrata a pele no uso diário ou durante a prática de atividades físicas é uma proposta encantadora, principalmente quando se pode perceber um considerável aumento na quantidade de pessoas que demonstram preocupação com a saúde e o bem-estar, avalia.