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Ernesto Haberkorn

Sócio-fundador da TOTVS dá lição de empreendedorismo e liderança

Raquel Rezende 27/05/2014
Raquel Rezende 27/05/2014

Se com 70 anos de vida completados neste ano, Ernesto Haberkorn participou da fundação e desenvolvimento da TOTVS, empresa brasileira líder em software, serviços e tecnologia, criou o Circuito Netas, treinamento corporativo realizado no SPA Ventura, em Ibiúna (SP), e nos últimos sete anos dirige a TI Educacional, escola de cursos profissionalizantes na área de TI, não é possível duvidar da concretização dos planos que ele faz para os próximos 50 anos. Isso mesmo, Haberkorn diz que pretende viver até os 120 anos. Entre as ideias ainda pendentes que devem preencher seu tempo até lá estão: terminar de desenvolver o ERPFlex, software que oferece as melhores práticas de gestão para pequenas e médias empresas e fazer com que a maior parte da população mundial participe de um treinamento do Netas – práticas corporativas baseadas em princípios de qualidade de vida. “Preciso de, no mínimo, 30 anos para completar essas tarefas”, afirma.

Os planos de Haberkorn para os próximos anos, na verdade, não se distanciam muito das atividades que ele já realizou. Conforme ele conta, passou dois terços do tempo de sua vida desenvolvendo softwares. Tudo começou na Siga (Sistema Integrado de Gerência Automática), a primeira empresa dele que depois evoluiu para a Microsiga e, finalmente, TOTVS, a sexta maior empresa do mundo no segmento de ERP. “Estudei muito, me dediquei e trabalhei bastante também. Mas tudo isso acompanhado da prática de muitos esportes. Fiz de tudo: futebol, vôlei, basquete, natação, polo aquático, atletismo e corrida de aventura”, relata. Com os esportes, Haberkorn aprendeu que é muito importante competir. Porém, ele acrescenta que é necessário ter consciência que não é possível ganhar sempre. “Os outros também são bons. Ou até melhores. Por isso, deve-se saber perder”, diz.

Na faculdade de Administração de Empresas, realizada na FGV, Haberkorn destaca que aprendeu muitos conceitos de como administrar uma empresa. Mas, segundo ele, não aprendeu na escola tudo o que sabe. “Aprendi nos cursos avulsos que fiz, nos livros que li e nas empresas que trabalhei”, revela. E foi frequentando um curso de programação que Haberkorn teve o insight que acabaria, mais tarde, criando a TOTVS. “Estava caminhando pela região central de São Paulo, quando um garoto me entregou um folheto que avisava: Curso de Programação de Cérebros Eletrônicos. Assim eram chamados os computadores na época. Fui até lá e a secretária me informou que fazia duas horas que havia começado a aula. Quando entrei na sala, o professor estava ensinando o comando IF (em português, o termo “se”): ‘Salário maior que teto, paga imposto. Se não, não paga’. Naquele momento, acendeu uma luz. Entendi que essas poderosas máquinas poderiam executar as mais diversas tarefas, pois trabalham de acordo com um programa, escrito por um programador”, relembra.

Depois desse instante, foi fácil para Haberkorn juntar os dois conceitos que dariam sentido para sua vida. Com o comando IF, ele concluiu que as máquinas poderiam tomar decisões, e percebeu que um programa de computador é capaz de automatizar o processo de administração de uma empresa. Era o ano de 1965 e, a partir desse momento, começou a programar. Só parou em 1992. E depois retornou em 2007 e, segundo ele, espera não mais parar. “Ainda hoje, quando vejo o resultado de uma rotina estampada na tela, depois de horas de tentativas persistentes, a sensação é aquela: assemelha-se a um orgasmo. Se eu morrer à tarde, quero programar de manhã”, confessa.
No entanto, até chegar a ter sua própria empresa que envolvesse programação, Haberkorn percorreu um caminho longo. Antes de começar a Siga, ele trabalhou por quase nove anos para a ESC – Empresa de Sistemas de Computadores, subsidiária da Siemens e RCA no Brasil. Ele lembra que um dia, em 1974, sem aviso prévio, a ESC fechou suas portas e ele, de repente, ficou desempregado. Dessa forma, a Siga recebeu um estímulo involuntário para ser concretizada. “A coragem para empreender foi facilitada”, afirma. Haberkorn conta que teve que encontrar uma alternativa para trabalhar e o projeto do Siga estava quase completo, quando um amigo alemão da ESC, Herr Koch, sugeriu a ele acabar de desenvolver o sistema e entregar gratuitamente aos clientes que adquirissem o computador. “Era a primeira vez que se falava em software livre no Brasil”, lembra.

Até a empresa Siga se estruturar, se passaram alguns anos e, durante esse período, Haberkorn conta que passou por muitas fases. Para começar, a Siga iniciou suas atividades em uma garagem de uma indústria de artefatos de metais que pertencia ao seu cunhado. Haberkorn realizava os serviços em máquinas de empresas que tinham algumas horas livres, normalmente de madrugada. E, dessa maneira, o trabalho fluiu. Haberkorn arrumou novos clientes, através de familiares e amigos que trabalhavam em empresas que necessitavam dos seus serviços. Em 1976, ele conseguiu um computador por intermédio de uma empresa que tinha assumido o parque de máquinas da Siemens. Porém, o equipamento quebrava constantemente e, mesmo assim, Haberkorn seguiu trabalhando. Quando teve uma oportunidade, fez uma parceria com a GEL, um grande cliente, para instalar o computador nessa empresa. E, após seis meses de trabalho, Haberkorn tinha conquistado mais de 100 clientes. “Financeiramente, a empresa ia bem, às vezes finalizando, de madrugada, programas que há muito já deviam funcionar”, recorda.

A empresa Siga se transformou em Microsiga em 1983, através de uma proposta ousada de Laércio Cosentino, atual CEO da TOTVS. Cosentino, quando tinha 17 anos, começou a trabalhar para Haberkorn porque queria entender mais de negócios em torno de computadores. O pedido de trabalho a Haberkorn foi feito pelo pai de Cosentino, que era diretor da GEL. Haberkorn relata que concordou em empregar Consentino com a condição de ele começar como estagiário, ganhando pouco, porém exigiu que tivesse muita disposição. Apesar desse começo não muito animador, Cosentino logo foi assumindo posições de gerência. Haberkorn recorda que em uma ocasião, Cosentino convidou-o para almoçar e durante a refeição tirou o plano de negócios da nova empresa, propondo divisão de capital de 50% para cada. “Cosentino queria aproveitar a onda de downsizing que estava ocorrendo com a proliferação dos microcomputadores, agora já bem mais potentes e capazes de substituir o mainframe. Foi nesse ano que a IBM lançou o primeiro PC (Intel 8088)”, conta Haberkorn. Diante da proposta tão convincente, Haberkorn aceitou o negócio antes do almoço acabar. “Cosentino tinha características que, sem dúvida, caem bem em qualquer pessoa que quer um futuro brilhante: fala pouco, é calmo, sabe ouvir e briga por tostões. Somos sócios até hoje. Ele é um grande empreendedor”, opina Haberkorn.

Trabalhando com Cosentino na Microsiga, Haberkorn ficou livre para fazer o que mais gostava: programar. “Laércio administrando e eu só programando”, comenta Haberkorn. Na área de atuação da Microsiga, a dupla decidiu fazer algo mais fácil e prático. “Falando um pouco de tecnologia, depois de muito apanhar na mudança de plataforma, enfrentando desafios como o Windows, acesso a terminais remotos, ambiente cliente-servidor, tentativas com várias tecnologias, sem êxito, finalmente conseguimos chegar à criação da nova linguagem – AdvPl – e do novo sistema, o Protheus”, recorda. Em 1992, Haberkorn parou de programar para virar chefe. “Nessa época, eu tinha uma baita equipe que se dividia em diferentes setores: Educação, Sistemas, Qualidade, Suporte. Mas, virei chefe. Não punha mais a mão no lápis, quer dizer, no teclado. Meti-me em política, na Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro), fui presidente da regional de São Paulo e depois da nacional. A experiência valeu.”

Em 1999, um fundo de investimento resolveu injetar recursos na Microsiga. “Fizemos a transação com a Advent, um fundo norte-americano que hoje é um dos mais atuantes no Brasil. Ficaram com 25% da empresa, mas colocaram um bom dinheiro”, afirma. Entretanto, na visão de Haberkorn, o mais importante em uma transação de Private Equity, como essa, não é o dinheiro que entra, mas o processo de profissionalização que ocorre na empresa. Maior rigor nos procedimentos, auditoria frequente, criação de um conselho de administração, contratação de um escritório de advocacia foram as ações realizadas para a empresa funcionar após a aplicação do dinheiro investido pelo fundo. “Resumindo, era um monte de novos diretores e gerentes, todos engravatados, jovens e elegantes que passaram a frequentar a empresa. No fundo, eles só querem saber qual será o lucro depois do IPO (termo em inglês que significa Initial Public Offering, oferta pública em que as ações de uma empresa são vendidas ao público pela primeira vez), quanto a ação vai valorizar, o que você vai fazer com o dinheiro que entrar. Tem que ser bem gasto, não pode queimar”, explica Haberkorn.

E quando estava quase tudo pronto para o IPO ser concretizado, os bancos exigiram que a Microsiga apresentasse um faturamento maior. Na época, o faturamento era de R$ 200 milhões por ano. A solução apresentada para a questão veio através da sugestão de fazer fusões. Assim, a Microsiga juntou-se à Logocenter, a quarta maior empresa de software empresarial na época. “Duas empresas, dois sistemas, clientes fidelizados. Era preciso ter um nome que encabeçasse as duas. E foi aí que nasceu, em 2005, a TOTVS”, recorda Haberkorn. Ele esclarece que o nome TOTVS veio de uma frase que João Paulo II colocou em seu testamento: “Totvs tuus” ou “Meu legado é de todos”. “Ou seja, tudo que eu deixei pertence ao mundo”, enfatiza Haberkorn. Depois do IPO, Haberkorn diz que a TOTVS ganhou nova vida. “Com os recursos obtidos, fez uma série de fusões, as mais importantes com a RM, terceira no mercado e a Datasul, segunda”, explica. Depois disso, ainda tiveram mais fusões com cerca de 20 empresas de vários segmentos de tecnologia. Em 2012, a TOTVS foi eleita a empresa do ano pela revista Exame. “Os números não param de crescer, a empresa se globalizou, enfim, virou de fato uma multinacional”, destaca Haberkorn.

Porém, na prática, todo esse avanço da TOTVS significou, para Haberkorn, a ida dele para o conselho de administração da empresa. “Disseram-me: Olha, agora você não precisa mais vir todos os dias, só uma vez por mês. Para decidir algumas coisas. Enfim, a ida para o conselho fez com que eu trabalhasse uma vez por mês. Vinte e nove dias em casa. Quem não quer uma vida assim? Eu não quis”, enfatiza Haberkorn. Diante disso, ele não teve alternativa a não ser empreender de novo. Dessa forma, nasceu a TI Educacional, depois o Netas e depois o ERPFlex. Atualmente, Haberkorn diz que passa uma parte do dia documentando e programando o ERPFlex e a outra parte perguntando aos seus colaboradores se já fizeram hoje o que deveriam ter feito hoje. “Se a resposta for negativa procuro ajudar e, se necessário, tomo uma decisão mais definitiva para resolver o problema. Esse é o papel do líder”, ensina.

Além disso, Haberkorn escreveu mais um livro que entrará para a lista de seus 14 já publicados. Com o título “Dicas de como chegar lá!”, o livro enaltece os ensinamentos que a vida proporcionou ao empresário, passando por momentos de decisão. Haberkorn conta, de maneira bem-humorada, as atitudes que lhe proporcionaram parcerias vitoriosas, tendo como pano de fundo o case Totvs. E transmite, entre outras coisas, que é preciso dividir para multiplicar. Outro momento importante presente no livro é como foi criado o Circuito Netas. Admirador da natureza, esporte, trabalho, amor e saúde, Haberkorn buscou oferecer no Circuito Netas um treinamento diferenciado, com o intuito de apresentar uma rotina mais saudável e com qualidade de vida, fortalecendo as atividades profissionais e pessoais. Embasado em 10 princípios de qualidade de vida, detalhados no livro, o treinamento é realizado no SPAventura, em Ibiúna, com conceito sustentável. “O livro já é um resumo e pode ser lido em 55 minutos. É ilustrado, objetivo com informações claras e bem-humoradas. É impressionante o que estou recebendo de respostas positivas. Pais e mães falando que nunca conseguiam fazer os filhos lerem alguma coisa, mas com o livro está sendo diferente. Os pequenos sentem-se estimulados à leitura com a obra”, comemora Haberkorn.

O empreendedor considera que não foi só a sociedade que deu a ele muita coisa. Foi Deus e a maneira de ele ver as coisas. “Se não der certo, tento outra vez. E aí sempre dá”, destaca. Haberkorn diz que oferecer qualquer coisa para qualquer pessoa dá mais prazer e alegria do que receber. Por isso, ele planeja devolver para a sociedade parte de tudo o que ela já lhe proporcionou. E uma das ações será a distribuição gratuita de 100 mil exemplares de seu mais novo livro Dicas de como chegar lá. “Pretendo fazer com que esses princípios saudáveis para se ter sucesso com qualidade de vida e outros que vierem se transformem em uma espécie de mandamentos impostos pelo governo. Aí não veremos pobres pelas ruas, não veremos gente morrendo cedo por causa das drogas, veremos pessoas felizes trabalhando e amando de verdade, não veremos pessoas tentando matar o tempo e, na verdade, matando a vida e não aproveitando o tempo”, diz Haberkorn.

3 Comentários

  • Rafael11 de setembro de 2014

    Muito bacana a entrevista.

  • Brunno Sagi12 de dezembro de 2014

    parabéns bussines mannnn !!!

  • Heliezel26 de dezembro de 2014

    Um espelho e lição de vida para quem quer empreender.

    Abraço.

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