O foco na bola

Foram apenas 14 segundos. Nesse curto tempo dá 12 toques na bola. Num instante vai para frente. Em outro volta para traz. Retorna para frente em direção ao gol. Nos dois segundos que não toca na bola, olha para localizar o seu companheiro que chega correndo para dentro da pequena área. Ele cruza a bola milimetricamente no pé do atacante que marca o gol. Esses 14 segundos no terceiro gol da Argentina contra a nossa algoz Croácia, é a melhor síntese de toda a essa Copa inusitada, realizada no Catar, península da arábica na Ásia Continental e que terminou neste domingo. A síntese é o foco e o foco é a bola, nos pés e na cabeça de um gênio do futebol: Lionel Messi, tri campeão pela Argentina, aos 35 anos e escolhido o craque dessa Copa.

Messi pode ser apontado como o melhor jogador do Século 21. Será sempre lembrado por suas qualidades individuais, mas também pelo seu trabalho de “intraempreendedor”, de “empreendedor corporativo”, aquele que trabalha para a empresa, para o time. No caso dele sempre com o foco na bola. Essa é a sua principal virtude. Foi o jogador em toda a Copa que deu mais passes decisivos para gols.

Nos livros de economia e negócios, uma significativa parte dessas páginas é dedicada ao foco, a necessidade de cada empresa de focar num produto ou serviço para alcançar o sucesso. No futebol também tem que ser assim. Durante esta Copa do Mundo a grande estrela da seleção da Argentina soube mostrar muito bem o que é ter foco, foco na bola.

Messi não perde nenhum segundo para deixar seus cabelos “nevados”, numa mistura de cores branca e amarela. Não ensaia dancinhas ridículas dentro do campo. Para ele cada gol é comemorado com fraternos abraços entre os companheiros. Também jamais aceitaria um convite do Ronaldo que levou jogadores brasileiros para a comer bife folheado a ouro num restaurante do Catar, no lance que pode ser qualificado como o da maior imbecilidade e ostentação fora dos campos de futebol dessa Copa.

Mesmo com toda a sua genialidade demostrada pelos gramados do mundo inteiro e agora na Copa do Mundo, Messi é ainda um menino do bairro La Bajada, na rua Estado de Israel, na cidade de Rosário, região central da Argentina. Ali, na rua de frente do sobrado onde vivia, jogava bola e driblava todos os mais velhos do que ele. Aos 7 anos, em 1994, foi jogar no Newell’s  Old Boys, time de coração do ídolo Maradona. Olheiros do Barcelona, da Espanha, viram ele e aos 13 anos o levaram embora.  A partir de 2004 passou despontar no futebol espanhol até chegar nos dias de hoje ao PSG de Paris, na França.

Muitas vezes, ao retornar para a cidade de Rosário, para rever sua família, sentava no meio fio da rua e ficava no lado da sua velha bicicleta para conversar com todos os vizinhos, moradores da rua.

Nesse mesmo bairro conheceu o amor da sua vida inteira e cujo nome está gravado na chuteira que jogou o final dessa Copa: Antonela. Fruto desse amor, eles têm três filhos. Para dar sorte, em jogos decisivos, como o de hoje, a mãe e os três filhos vestiram a camisa azul e branco, com o número 10 nas costas.

Messi ganhou a copa como um prêmio, não só pelo o que joga nas quatro linhas de um campo de futebol. Mas também pelo o que faz fora do campo. Vive para a família.  Não se mete em polêmicas. É amado e respeitado por todos que jogam com ele por sua postura de companheirismo.  Está sempre disponível para participar de campanhas beneficentes em favor de todos os argentinos.

No jogo de hoje, que deve ser o seu último de Copa do Mundo, Messi marcou um gol de rebote do goleiro e outros dois de pênalti. Em cada pênalti esperou até o último segundo para ver o canto que o goleiro escolheu para se inclinar e ele chutou a bola no lado oposto. Para fazer isso é preciso também muito foco.

 

Acari Amorim

Acari Amorim

Jornalista com larga experiência profissional.Foi repórter especial da Veja, editor de economia no O Globo, no Rio de Janeiro. Também integrou equipe de editores dos jornais da RBS. Fundador e diretor geral da Empreendedor

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