Dados extraídos a partir de milhões de NFes, mostram que a folia impulsiona decisões estratégicas meses antes do consumo final
Mesmo antes dos blocos tomarem as ruas, a economia já entrava no ritmo do Carnaval. Dados da Qive, plataforma de automação do Contas a Pagar, analisados a partir de milhões de notas fiscais eletrônicas (NFe), mostram que, no mercado B2B, a principal festa do país é construída com meses de antecedência, por meio de planejamento financeiro, negociação de escala e decisões estratégicas de compra. A Qive analisou R$ 62,1 bilhões de compras de bebidas em 2025, e percebeu alta de 14,3% de volumes transacionados sobre 2024 e o maior patamar dos últimos cinco anos, mesmo com queda de 4,38% no ticket médio.
Esse descompasso entre ticket médio menor e faturamento maior aponta para um ganho de escala. Empresas compraram mais, negociaram melhor e compensaram margens menores com volume, um comportamento típico de períodos em que há pressão sobre custos, mas também maior previsibilidade de demanda.
“Na prática, o segmento está vendendo mais, mesmo ganhando menos por unidade. Isso mostra poder de negociação e uma estratégia clara de volume para compensar margens mais apertadas”, avalia Christian de Cico (foto em destaque), CO-CEO e cofundador da Qive.
O levantamento mostra que mais da metade das aquisições de bebidas ocorreram no segundo semestre, com forte concentração no quarto trimestre, responsável por cerca de 29% a 31% do consumo anual. O padrão parece indicar o “efeito verão”: a indústria e o varejo se preparam de uma só vez para festas de fim de ano, férias e Carnaval, aproveitando janelas mais favoráveis de negociação e logística.
“Um fator que também pesa nesta jornada B2B é que o início do ano costuma ser mais conservador para compras corporativas, em função de obrigações fiscais e tributárias concentradas no primeiro trimestre. À medida que o ano avança e os orçamentos ganham clareza, as decisões de compra aceleram, e é nesse momento que empresas se preparam para picos previsíveis de demanda, como o Carnaval”, explica o CEO da Qive.
No caso de fantasias e insumos de confecção, o padrão é claro: na base analisada pela Qive, a maior parte das compras acontece entre o segundo e o terceiro trimestre do ano, que concentram cerca de 25% e 27% do volume anual, respectivamente. O dado reforça uma lógica conhecida entre fabricantes e fornecedores: assim que um Carnaval termina, o próximo já começa a ser organizado. A antecipação reduz riscos de ruptura, dilui custos e dá previsibilidade a uma cadeia produtiva altamente dependente de sazonalidade.
No conjunto, o levantamento indica que o Carnaval não é apenas um evento cultural, mas o sinal antecipado de como a economia brasileira está se organizando. Planejamento, escala e gestão financeira aparecem com mais força do que o consumo por impulso. “O Carnaval é um bom exemplo de como a economia brasileira funciona muito antes do consumo acontecer. Os dados mostram menos improviso e mais planejamento: empresas compram antes, negociam melhor e usam previsibilidade como vantagem competitiva. É no backoffice que a festa começa”, encerra Christian.



