Por Nara Iachan, CMO da Loyalme*
Quando comecei a empreender, acreditava que o maior desafio seria ter boas ideias. Imaginava que construir uma empresa dependia principalmente de criatividade, energia e da capacidade de trabalhar mais do que todo mundo ao redor. Com o tempo, percebi que a realidade é bem diferente. O verdadeiro desafio não está na ideia inicial, mas na capacidade de continuar tomando decisões importantes mesmo sem ter todas as respostas. Empreender é conviver diariamente com a incerteza. É seguir em frente sem garantias, sabendo que algumas decisões só revelarão seus resultados meses – ou até anos – depois.
Ao longo de 14 anos, aprendi que muitas das conquistas que parecem vitórias no curto prazo podem, na verdade, se transformar em armadilhas no longo prazo. Empresas podem expandir enquanto acumulam fragilidades silenciosas: modelos de negócio insustentáveis, estruturas de custo desequilibradas ou produtos que não resolvem problemas reais. A maturidade empreendedora começa quando entendemos que crescer não é o objetivo final. O objetivo é construir algo que faça sentido, gere valor e se sustente ao longo do tempo.
Apesar do aumento de iniciativas voltadas à diversidade nos últimos anos, a presença feminina na tecnologia, área na qual também atuo, ainda está longe da equidade. No Brasil, apenas 19,2% dos especialistas em Tecnologia da Informação são mulheres, segundo o estudo W-Tech 2025, do Softex, que aponta que seriam necessárias mais de 53 mil novas profissionais por ano para que o país se aproxime da paridade até 2030.
Muitas vezes, entramos no mercado precisando provar nossa competência mais de uma vez – para investidores, parceiros, clientes e, em alguns momentos, para nós mesmas. Existe uma expectativa de que precisamos estar sempre prontas, seguras e impecáveis.
Somado a isso, uma das lições mais difíceis foi aprender a abrir mão de ideias nas quais eu acreditava profundamente. Encerrar projetos, rever estratégias ou admitir que algo não está funcionando exige coragem. E, paradoxalmente, são essas decisões que mais protegem o futuro da empresa. Outra virada importante acontece quando entendemos que liderança não é sobre ter todas as respostas.
No início, é comum acreditar que o líder precisa ser a pessoa mais brilhante da sala – aquela que concentra as melhores ideias e define todos os caminhos. Com o tempo, fica claro que liderar é outra coisa.
É criar ambientes onde as melhores ideias possam surgir, independentemente de quem as traga. É formar times capazes de pensar, questionar e evoluir juntos. Empresas sólidas nascem quando o talento coletivo supera a necessidade de centralizar decisões. No entanto, talvez a maior transformação provocada pelo empreendedorismo seja interna. Empreender não muda apenas o que você faz, muda a forma como você enxerga risco, responsabilidade e o próprio tempo.
Com os anos, você entende que não existe um momento em que tudo fica completamente claro. O caminho de um negócio é feito de ajustes constantes, revisões de rota e aprendizados que só aparecem na prática.
Depois de 14 anos empreendendo, continuo acreditando profundamente no poder de construir empresas. E acredito, também, que ver mais mulheres ocupando posições de liderança não é apenas uma questão de representatividade, é uma transformação no próprio ambiente de negócios. Lideranças diversas constroem empresas mais resilientes, mais conectadas com as pessoas e mais preparadas para o futuro.
*Nara Iachan (Forbes Under 30) é cofundadora e CMO da Loyalme, startup de soluções de fidelização. Nara é formada em Economia pela UFRJ, possui MBA em Gestão e Desenvolvimento Empresarial, também pela UFRJ, mestrado em Inovação pela FEI e tem mais de 10 anos de conhecimento sobre o setor de fidelização de clientes. Apaixonada por empreendedorismo, marketing e inovação, a CMO valoriza a sensação de fazer a diferença na vida das pessoas e no mercado.



