Mães empreendedoras: os ônus e bônus das mulheres que atuam no franchising

Elas têm negócios próprios e, apesar de contarem com alguma flexibilidade de horário para lidarem com o cotidiano da maternidade, afirmam que a rotina do empreendedorismo chega a ser mais pesada do que a da carteira assinada, mas vale a pena

Voos internacionais faziam parte da rotina agitada da comissária de bordo Márcia Gomes Di Giaimo, que amava a profissão e estava bastante satisfeita com a remuneração obtida com ela. Mas, há sete anos, ela sentiu o desejo de ser mãe e as viagens já não cabiam mais na rotina familiar. “Com tantos voos internacionais e rotina atribulada, eu mal veria meu filho crescer. A maternidade foi uma opção planejada e a franquia veio para também manter meu desejo de ser uma profissional realizada, porque a mulher desempenha diversos papeis na sociedade e é possível realizar todos eles”, comenta.

Foi justamente por isso que ela optou pela franquia da Mineiro Delivery, uma rede que oferece comida caseira na caixinha. A franquia de Márcia, na capital paulista, é uma das mais elogiadas pela franqueadora e ela faz questão de estar presente na operação, zelando pela qualidade do produto e do atendimento. “Eu não sabia nada sobre alimentação antes de comprar a franquia, muito menos sobre varejo. Aprendi tudo com a franqueadora e com o dia a dia e, hoje, minha loja tem a qualidade e o atendimento dos quais me orgulho. Mesmo que eu me ausente, os clientes receberão seus boxes exatamente como devem ser, sem erros e com muito sabor”, orgulha-se. A franqueada tem mais tempo com o filho, mas trabalha muito. “Engana-se quem imagina que franquia se faz sozinha. É um trabalho complexo, de depende muito do franqueado, precisamos estar o tempo todo na loja e, se queremos que a lucratividade venha, devemos trabalhar por ela”, informa.

Concorda com ela Miryan Martha Rossi Biavati, de 67 anos, franqueada da Doutor Hérnia, clínica de fisioterapia em Maringá (PR). Antes de ser franqueada, a empresária fez de tudo, de costureira a pasteleira. “Mas, há dez anos, minha filha conheceu a Doutor Hérnia e nós resolvemos empreender juntas, numa empreitada muito intensa”, lembra.

A família é natural de Cascavel, também no Paraná, mas se mudou para Maringá para gerir melhor a franquia. “Nós inauguramos e acreditamos que não seria necessário estar tão perto. Mas o negócio não fluiu sozinho e os franqueadores nos chamaram para uma conversa séria: ou assumíamos as rédeas da gestão ou fechávamos a unidade franqueada. Foi então que nos mudamos de cidade, colocamos a mão na massa e, hoje, atendemos mais de 450 pacientes por mês”, alegra-se a empreendedora.

Quem atualmente está à frente da operação é Cristiane, a filha de Myriam. A mãe, agora, consegue curtir um pouco mais a vida, aposentada. “A franquia nos proporciona uma vida estável, financeiramente falando, e todo o trabalho vale a pena”, comemora.

Aposentadoria, entretanto, não é o plano de todas as mães. Em Jacarezinho (PR), quem está protagonizando no segmento de suplementos alimentares, com uma nova franquia Dr. Shape, é Maria Regina Larcher (na foto em destaque com o filho), de 66 anos, com o apoio e incentivo do filho Gustavo Larcher, de 38 anos. A história deles é um exemplo de empreendedorismo e parceria, mostrando como uma relação de sintonia entre mãe filho pode também se transformar numa relação de sucesso no meio empresarial.

Formada em Direito, mas bancária concursada e atuante por 33 anos, Maria Regina se aposentou na capital paulista e voltou a Jacarezinho após a aposentadoria para cuidar de sua mãe, idosa. E, por não desejar parar de trabalhar, uniu-se ao filho para empreender. “Eu cuidarei da área financeira e o ajudarei com as parcerias com outros estabelecimentos comerciais, a exemplo de academias. Ele cuidará de toda a área operacional”, comenta.

A nova unidade franqueada inaugurou em abril, mas já bateu suas metas de faturamento, o que deixou a mãe, Maria Regina, e o filho, Gustavo, animados. “Somos sócios, mas mãe e filho. E ver o sucesso dele me enche de orgulho”, comenta a mãe.

Franqueadora também tem rotina dupla
Também empreendeu, mas como franqueadora, a empresária Patrícia Lira. Aos 45 anos de idade, a pernambucana iniciou sua empreitada como sacoleira, ao lado da mãe. “Vendíamos roupas de porta em porta, carregando sacolas, e fazíamos muito sucesso”, lembra. Com dom para os negócios, Patrícia logo conquistou clientela e, um ano depois, já sentiu necessidade de ter uma loja física. O sucesso do empreendimento levou à segunda loja, em 2016, já no shopping Guararapes, na capital pernambucana. Rapidamente, veio a terceira loja, no shopping Tacaruna. Os negócios foram se ampliando e, atualmente, a Norah Acessórios é uma rede com oito lojas em Pernambuco e três em São Paulo – e que iniciou seu processo de expansão por franquias em todo o Brasil.

Patrícia Lira trabalha muito e as viagens a afastam de casa e das filhas, de 9 e 16 anos. Dias antes de inaugurar sua terceira loja própria em São Paulo, a mãe se viu numa situação difícil: a filha menor estava internada em Recife, onde a família mora, com uma pneumonia. Acompanhando a criança hospitalizada, a empresária adiou a inauguração da loja até que a saúde de sua filha ficasse completamente restabelecida e ela pudesse viajar em paz. “Nenhuma mulher é só empreendedora. Somos mães, filhas, mulheres e nossas preocupações nunca terminam”, comenta Patrícia que, enquanto estava na capital paulista, coordenava os trabalhos de suas outras oito lojas em funcionamento em Pernambuco.

Equilibrando pratos
Seja franqueada ou franqueadora, quem empreende deve saber que todo negócio próprio exige comprometimento e dedicação. “Por mais que a empreendedora conte com uma boa equipe, ela deve gerir a unidade franqueada ou, no caso da franqueadora, todas as áreas da empresa”, alerta Melitha Novoa Prado, advogada especializada em franchising, que atua no segmento há 35 anos.

Segundo Melitha, o maior erro de quem tem um negócio próprio é acreditar que há períodos em que se trabalha menos. “Empreender traz ônus e bônus. Você pode se planejar para ter horários flexíveis, mas as responsabilidades são grandes. E os negócios que têm os franqueados e franqueadores dedicados são aqueles que apresentam melhor desempenho”, comenta.

A advogada enfatiza que ninguém precisa ser escravo do trabalho – mas é necessário criar uma rotina de atividades e estar ciente de que não há carteira assinada. “Nenhum empreendedor cumpre um horário determinado de trabalho. Há franquias que exigem dedicação nos finais de semana, por exemplo, e dificilmente o franqueado consegue tirar 30 dias de férias. Por outro lado, quando se é um multifranqueados, os ganhos ultrapassam os de um funcionário CLT. Portanto, vale a pena toda a dedicação. Por fim, vale lembrar que as franquias operadas por mulheres têm desempenho superior a quaisquer outras e isso vale todo o esforço”, finaliza Melitha.

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