Diante de recordes de afastamentos por transtornos mentais no trabalho, líderes destacam ações estruturais para promover bem-estar e prevenir adoecimento psicológico nas organizações em 2026
Ao longo do último ano, mais de 470 mil trabalhadores foram afastados por condições como ansiedade, depressão e outros transtornos mentais e comportamentais, segundo informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Os dados consolidam a saúde mental como um dos principais desafios enfrentados pelas empresas brasileiras. O cenário pressiona organizações a reverem modelos de gestão, cultura interna e práticas de liderança, colocando o tema no centro das decisões estratégicas dos negócios.
Para Leonardo Abrahão, psicólogo, criador do movimento Janeiro Branco e parceiro da Vetor Editora, empresa do grupo Giunti Psychometrics, o debate precisa avançar para além de ações pontuais. “Empresas não tratam a intimidade de ninguém, mas têm responsabilidade direta sobre os contextos que geram saúde ou adoecimento: cultura de liderança, carga e ritmo de trabalho, comunicação, justiça organizacional, respeito, previsibilidade e segurança psicológica”, afirma.
Diante desse cenário, executivos de diferentes setores compartilham as estratégias que estão colocando em prática para promover saúde mental, prevenir o adoecimento psicológico e construir ambientes de trabalho mais sustentáveis em 2026. Confira:
1) Negligenciar a saúde mental não é mais uma opção
Segundo Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e na gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas, negligenciar esse tema é um risco estratégico. “Não se trata mais de uma pauta de campanha pontual, de Setembro Amarelo ou Janeiro Branco, é assunto de conselho. A crise de saúde mental se tornou o principal gargalo oculto da produtividade nas organizações brasileiras, e afeta turnover, absenteísmo, engajamento, e até compliance regulatório. Ignorar isso hoje compromete resultados, talentos e reputação”, alerta.
Assim, em um cenário de crescimento sustentável e ético, esse assunto precisa ser tratado com a mesma prioridade que os KPIs estratégicos. Antecipar, proteger, sustentar e liderar são ações indispensáveis para que empresas cresçam de forma saudável, consistente e competitiva. Para Tatiana, a era do improviso acabou: o futuro será de quem entende que cuidar da saúde mental não é apenas acolher, mas também prevenir, estruturar e liderar.
2) Inteligência artificial como aliada da saúde mental nas empresas
Para Franciane Fenólio, CHRO da Hera.Build, startup especializada em customer intelligence e otimização de negócios com uso de inteligência artificial, a saúde mental precisa ser tratada de forma cada vez mais estratégica — e baseada em dados. “Falar de saúde mental nas empresas, hoje, exige sair do campo da percepção e entrar no campo da inteligência. A inteligência artificial permite identificar padrões de sobrecarga, falhas de comunicação, riscos de desgaste emocional e gargalos operacionais que impactam diretamente o bem-estar das pessoas. Quando bem aplicada, ela deixa de ser apenas tecnologia e passa a ser uma aliada na construção de ambientes de trabalho mais saudáveis”, afirma.
Segundo a executiva, integrar dados de diferentes áreas — como RH, liderança, comunicação interna e desempenho — é essencial para prevenir o adoecimento antes que ele se manifeste em afastamentos ou queda de produtividade. “A IA nos ajuda a enxergar o que antes ficava invisível: sinais de exaustão, desalinhamentos culturais e processos que geram estresse crônico. Em 2026, empresas que desejam crescer de forma sustentável precisarão usar tecnologia não apenas para acelerar resultados, mas para tomar decisões mais humanas, conscientes e responsáveis”, completa Franciane.
3) O profissional de RH como protagonista
Para Juliana Camargo, Diretora de Gente & Cultura da Funcional, pioneira e líder em programas de acesso e adesão em saúde no Brasil, o profissional de Recursos Humanos é peça-chave na execução de estratégias corporativas, e deve garantir que a saúde mental seja compromisso contínuo, e não ação pontual. “No último ano, 22% dos beneficiários do nosso Benefício Farmácia utilizaram medicamentos da linha psiquiátrica, cerca de 1 em cada 5 pessoas. Esse dado reforça a urgência do cuidado com a saúde mental e, neste Janeiro Branco, nos lembra que cuidar dela salva vidas, protege famílias e fortalece empresas”, compartilha.
Na prática, a executiva reforça que a nova redação da Norma Regulamentadora Nº 1 (NR-1) exige do RH mais preparo técnico e estratégico. Isso significa adotar ferramentas de análise de dados para atuar de forma preditiva, além de fortalecer a cultura de cuidado contínuo e garantir que lideranças estejam capacitadas para serem aliadas na promoção da saúde emocional.



