por Raquel Rezende (raquel@empreendedor.com.br)
Oferecer aos alunos a oportunidade de aprender na prática a gerenciar um projeto e, paralelo a isso, ajudar diferentes entidades sociais integra a proposta inovadora de ensino no curso de Administração da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc-Esag). A ideia lançada pelo professor Leandro Schmitz, que leciona a disciplina, já concretizou 40 projetos sociais, beneficiando mais de 20 entidades da Grande Florianópolis. A grande demanda dos próprios alunos para atuarem como gestores em situações reais fez o professor sugerir a abordagem diferenciada para ensinar a disciplina. E foram os próprios estudantes que manifestaram a intenção de realizar projetos sociais.
Inspirados pelo conceito de retribuir à sociedade o investimento feito neles mesmos, já que a Udesc é uma universidade pública, os estudantes se envolvem de maneira intensa nos projetos. Do outro lado, o professor Schmitz atua como consultor e incentivador, sustentando o discurso de que “no papel tudo funciona” e por isso é necessário agir. “O projeto se origina da necessidade de vivenciar uma metodologia cujo aprendizado quando tratado apenas na instância acadêmica é muito superficial”, destaca André Souza Noronha Nepomuceno, gerente geral do projeto Tempo de Viver, que realizou obras de melhorias e compra de equipamentos para o Cantinho dos Idosos.
A iniciativa, desenvolvida pela universidade há oito anos com absoluto sucesso em todos os projetos quando se refere ao alcance das metas definidas, acaba gerando um comprometimento dos alunos com a causa muito maior do que uma disciplina de universidade poderia justificar. E isso acontece, argumenta o professor Schmitz, porque somente em situações reais os alunos podem exercer o gerenciamento, quando é necessário resolver problemas, gerenciar mudanças, motivar equipes e balancear demandas conflitantes.
Aos acadêmicos é dada autonomia total para gerenciar os projetos – estruturados no início do semestre letivo – com o apoio de softwares específicos. Ao longo do período, o planejamento é executado e acompanhado semanalmente. Com equipes em cada área do projeto com as respectivas responsabilidades, em média, eles têm duração de três meses. No final do semestre letivo, é apresentada a prestação de contas dos recursos captados, as despesas e o resultado efetivo.
Na opinião de Thiago Furlani, ex-aluno da Udesc que foi gerente geral do projeto Tocando Vidas, a iniciativa do professor é perfeita. O Tocando Vidas ajudou a instituição Novo Alvorecer, que oferece aulas no contraturno escolar para crianças carentes da Vila Aparecida. O diferencial da instituição está em oferecer aulas de música. Com a ação realizada pelos alunos da Udesc, foi possível construir duas novas salas e reformar os banheiros e o acesso ao nível superior do prédio. Para Furlani, a oportunidade de construir e entregar algo grande para ajudar muitas crianças foi a grande lição que a disciplina de Gerenciamento de Projetos deixou. Além disso, ele acrescenta que o projeto possibilitou a utilização de muitos conhecimentos e habilidades aprendidas durante o curso, a vivência com uma ação de grande responsabilidade, complexidade e todas as dificuldades que isso envolve e, por fim, a realização de uma entrega concreta. “A disciplina é, em minha opinião, a melhor do curso”, enfatiza Furlani.
O acompanhamento constante do professor Leandro Schmitz nos projetos o motivou a fazer um doutorado sobre o desenvolvimento de competências. A pesquisa para a tese foi realizada com mais de 200 alunos, abordando levantamento qualitativo e quantitativo, e concluiu que este direcionamento da disciplina promove uma relação de liderança, mantém os alunos motivados para o trabalho, incentiva a organização do fluxo de informações, facilita a comunicação e o trabalho em equipe e proporciona a delegação de responsabilidades. Além disso, desenvolve habilidades para aplicar técnicas de gerenciamento de projetos para acompanhar o desempenho, ensina a saber quando há necessidade de promover mudanças na equipe para não comprometer o resultado e a planejar e assumir uma postura proativa.
O aluno Daniel Faust está na sétima fase e gerencia o projeto Com Licença, que auxilia a Casa São José, responsável por cuidar de 166 crianças no morro da Serrinha. As crianças ficam no contraturno das aulas no local, onde é oferecido reforço escolar, aulas de educação física, música, teatro, além de apoio psicopedagógico. Até o momento, foram captados cerca de R$ 35 mil para adequar a casa às normas exigidas pelos bombeiros, caso contrário a instituição poderá perder um subsídio mensal de R$ 15 mil que recebe da Prefeitura de Florianópolis. Para arrecadar a quantia, os alunos realizaram happy hours, venda de cupcakes, feijoada. “A potencialização do resultado quando se trabalha em uma causa nobre, em equipe e com planejamento, é muito grande”, avalia Daniel.
O projeto Tempo de Viver, gerenciado pelo estudante André, trabalha o desafio de arrecadar R$ 152 mil para executar uma obra hidrossanitária no Cantinho dos Idosos. O valor alto para ser conquistado e o curto período de tempo para trabalhar fez com que os acadêmicos fossem buscar parceiros e patrocinadores para o projeto. André conta que a equipe teve que negociar para conseguir ter êxito e, para isso, testou tudo aquilo que aprendeu ao longo da faculdade. Para André, a Udesc-Esag, com esse projeto, consegue cumprir à risca seu lema “Escola-Empresa-Comunidade” e aproxima os alunos da sociedade e do mercado. E de forma mais profunda, o legado que os projetos sociais da universidade deixam ultrapassam os resultados financeiros. O desenvolvimento dessas iniciativas fortalece, de maneira sistêmica, toda a sociedade. André relata que a grande lição que ele aprendeu foi procurar ser um promotor de soluções e auxiliar a sociedade a fazer o mesmo. “Afinal, por essência somos administradores”, conclui.
O professor Leandro afirma que o objetivo com a proposta era mostrar as vantagens de executar um projeto a partir de um planejamento detalhado. Mas, ele revela que a interação com as causas sociais foi um grande fator motivador. Leandro diz que poderia resumir a experiência afirmando que ela permite construir o certo, do jeito certo.