Empreendedorismo: um caminho de muita persistência e humildade

É super normal que no final da empreitada celebre a vitória e o trabalho bem sucedido. Mas a história real nunca é tão bonita como parece; e é importante que lembremos muito bem das dores e dificuldades enfrentadas – sem mágoa ou presunção –, porque são elas que nos ensinam.

Quando a onda de aplicativos de mobilidade urbana começou, percebi que seria um movimento sem volta e quis fazer parte dele. Ciente de que nesse tipo de negócio, baseado no conceito de marketplace, o ganho é em volume de vendas, dado que sua taxa de serviço é uma porcentagem muito pequena do total transacionado, passei a buscar por um mercado de alto giro que ainda não estivesse sendo atendido pelas novas tecnologias de comunicação disponíveis.

Na época, estimava-se que o mercado de motofretes de São Paulo contava com impressionantes 200 mil motoboys, que ainda organizavam suas corridas através de agências e com auxílio de telefones celulares, mas sem suporte de um aplicativo de otimização de trajetos. A solução oferecida pela 99motos provou-se um sucesso, melhorando a qualidade do serviços de motofrete – pois reduzia o tempo de retirada de encomendas – e aumentando os ganhos do motoboy – que passou a fazer mais viagens num mesmo dia. Tivesse eu abandonado o desafio não estaria aqui pra contar a história da companhia e lembrar de momentos que marcaram minha vida à frente dela. A 99motos teve marcos importantes na sua trajetória. Em 2016 tivemos a fusão com o Rapiddo; e, dois anos mais tarde, em Setembro de 2018, a 99motos foi incorporada pela gigante do ramo de delivery, iFood, momento a partir do qual não tive mais qualquer ingerência no negócio, pois me desliguei dele para seguir com outros planos.

Atento ao crescimento da indústria de A.I., sobretudo na área de health, que sempre me interessou muito, decidi buscar por formação acadêmica na área para me aprofundar no assunto e talvez angariar experiência que pudesse dar vida a outro empreendimento. Retornei então à minha alma mater, a Universidade de São Paulo, dessa vez em busca de um título de doutor na área de computação visual aplicada à radiologia. Em paralelo, comecei a buscar, na indústria, por parceiros que tivessem problemas de eficiência que fossem propícios para a aplicação das técnicas de A.I. que queria aprender.

Logo no início das minhas buscas, conheci muitos jovens cientistas do Hospital Albert Einstein que desenvolviam pesquisa na área e, por uma dessas coincidências da vida, também tinham uma veia empreendedora. Ali percebi que não só aproveitaria meu doutorado para uma profunda imersão na área de radiologia digital, mas como um laboratório para explorar novas oportunidades de negócio. Os primeiros frutos da empreitada confirmam aquela impressão. Minha pesquisa de doutorado começa a gerar suas primeiras publicações e, junto com meus dois novos pares, em Setembro de 2018,  fundamos a RadSquare, uma spinoff do Hospital Albert Einstein que almeja contribuir com a transformação digital na radiologia produzindo softwares de A.I. para auxílio diagnóstico. Devido a minha experiência pregressa gerindo startups, fui escolhido para colocar-me à frente da companhia como CEO. Hoje me divido entre minhas atividades acadêmicas (parte delas consideradas atividades de R&D da empresa) e a gestão de uma promissora health tech, que já conta com 6 integrantes, todos altamente capacitados; trabalho dobrado, pro bono, que eu chamo de profissão de fé.

Em apenas quatro meses de operação já lançamos nosso primeiro produto e começamos a desenvolver nosso departamento comercial. Entretanto, costumo brincar que uma empresa só tem um produto de fato quando encontra alguém disposto a pagar por ele. Por isso, muito dos nossos esforços e recursos têm sido empregados nesse sentido. Esse primeiro produto foi criado em parceria com uma equipe de profissionais que são eles mesmos (ou as empresas onde trabalham) potenciais clientes, mas as vendas mais importantes são aquelas realizadas pelos próprios founders, em contato direto com novos clientes, pois trazem preciosos insights sobre o market fit do produto.

Vale lembrar que probabilidade de você acertar no primeiro produto é muito baixa. Mudanças na estratégia de negócios são mais comuns do que se imagina, sobretudo em empresas emergentes. Um exemplo clássico é a Nitendo, que começou fabricando cartões de Hanafuda, um popular baralho japonês, e acabou se transformando num ícone dos games eletrônicos. Por isso, além de ter um time forte e com alta capacidade de entrega, é preciso ter rápido para reconhecer erros e corrigir rumos, o que exige o exercício contínuo da humildade. Esse tipo de dica pode parecer fora de contexto, mas só para quem está de fora do mundo do empreendedorismo e apegado a estereótipos de sucesso muito enganosos. O orgulho é uma desvantagem competitiva e quem não aprende isso rápido só acaba pagando caro pela lição. Errar é humano, cegar-se a ele um pecado capital dos negócios.

Não existe uma fórmula para fazer seu negócio dar certo, como se organizar a empresa desse jeito, der este ou aquele estímulo aos funcionários, tiver esse tipo de approach comercial etc, sua empresa vai conseguir decolar. Qualquer coisa semelhante me parece fantasia de quem supervaloriza sua própria experiência. Claro, dicas são sempre importantes. Mas aí estão milhares de empreendedores bem-sucedido para provar que cada caso é um caso; que a diversidade é algo inexorável. O que eu busquei entender, desde que me decidi por trilhar a via do empreendedorismo, foi o tipo de virtude que empreendedores de sucesso tinham em comum. Hoje, tendo acumulado algumas boas histórias, posso ousar dizer que a verdadeira fórmula do sucesso deve ter dois ingredientes básicos – frise-se, absolutamente acessíveis a qualquer um:  persistência e humildade. Os dois juntos lhe permitirão resistir à gangorra emocional dos primeiros anos de um negócio, mantendo o foco e criatividade para agir de maneira rápida e certeira.

 

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