Florianópolis, a ilha das startups

A capital catarinense tem hoje 10 vezes mais empresas de base tecnológica do que São Paulo, em proporção ao número de habitantes de cada cidade

Redação 13/12/2018
Redação 13/12/2018

Quem conheceu Florianópolis há 30 anos, encantava-se com aquela pequena cidade repleta de praias e atrativos naturais, com pouco mais de 200 mil habitantes e onde a maioria da população economicamente ativa trabalhava em função do serviço público. Além de servidores federais, estaduais e municipais, a cidade recebia também muita gente de outras cidades e estados, que vinham para estudar na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Hoje, quem visita a Ilha vai se deparar com um cenário ainda deslumbrante visualmente, mas completamente diferente como ambiente de negócios. Ao longo destas três décadas, a cidade – e a região metropolitana como um todo – tornou-se o maior polo de tecnologia em termos de densidade e faturamento de Santa Catarina, estado que já tinha outras potências regionais, como Joinville e Blumenau, no setor.

E esse salto se deve diretamente às gerações de empreendedores que se formaram nas universidades locais, um celeiro de mão de obra altamente qualificada, especialmente nos cursos de Computação e nas Engenharias, de onde saíram grande parte dos fundadores das empresas de TI da região.

De acordo com dados do Observatório Acate, estudo lançado em julho de 2018 pela Associação Catarinense de Tecnologia, a Grande Florianópolis concentra 32% do total de empresas do setor, que por sua vez são responsáveis por 41,4% do faturamento da TI catarinense. Isso representa 3.974 empreendimentos, que geram receita superior a R$ 6 bilhões por ano e empregam mais de 16,5 mil pessoas.

“Santa Catarina tem um modelo híbrido de ecossistema, em que leaders, os empreendedores, e feeders, pessoas e entidades que fomentam a inovação, se misturam”, resume José Eduardo Fiates, diretor executivo da Fundação Certi, um dos pilares do ecossistema de tecnologia local. Criada em 1984 para desenvolver pesquisa tecnológica aplicada, a Certi deu origem a uma das primeiras incubadoras do Brasil, a Celta – de onde saíram dezenas de empresas inovadoras e que continua sendo uma das referências para geração de novos negócios na cidade.

Além da incubadora, premiada três vezes como a melhor do Brasil pela Anprotec (associação que representa os parques tecnológicos e ambientes de inovação no país), a Certi participa ativamente de uma série de projetos e iniciativas que ajudam a fomentar novos negócios, em diversos estágios. O Sinapse da Inovação – gerenciado pela entidade e mantido pela Fapesc e Governo do Estado – ajuda a financiar startups que ainda estão em fase embrionária, com recursos de R$ 80 mil e bolsas de estudo para estimular os empreendedores a se dedicarem exclusivamente ao projeto. Para startups mais consolidadas, que já faturam e tem modelo de negócio escalável e foco corporativo (B2B), a gestora de capital de risco Cventures oferece investimentos na faixa de R$ 2 a 3 milhões.

Hoje Florianópolis é o segundo polo nacional em densidade de empresas por habitantes (mais de 541 a cada 100 mil) e em densidade de empreendedores (mais de 750 a cada 100 mil), atrás apenas de São Paulo. Se deste total de empresas fizermos um recorte apenas com startups, a Ilha supera a capital paulista, aponta Felipe Matos, empreendedor serial que já dirigiu o programa Startup Brasil, do governo federal, e criou a aceleradora Startup Farm. “O número de hubs de inovação cresceu demais em todo o país e, em Florianópolis, a gente vê isso muito claramente. Há o Centro de Inovação ACATE Primavera e muitos coworkings e novos espaços surgindo. O resultado é que a cidade tem hoje 10 vezes mais startups por habitante do que São Paulo”, explicou Felipe durante participação do Startup Summit, evento nacional do Sebrae que reuniu, em sua primeira, em Florianópolis, mais de 2,4 mil pessoas de 10 estados do país.

O ano de 1986 marca a fundação da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), que começou unindo as dez associadas em um condomínio de empresas. A ideia era colocar umas ao lado das outras para estimular ações conjuntas e gerar engajamento em um setor econômico que engatinhava à época em Florianópolis. A entidade cresceu e se manteve como um condomínio de empresas, no bairro universitário Trindade, por quase três décadas.

Em 2015, a entidade se transferiu para uma nova sede, que mantinha o conceito de deixar empresas próximas umas às outras: era o Centro de Inovação ACATE Primavera, localizado na SC-401, a poucos quilômetros do primeiro parque tecnológico da cidade (ParqTec Alfa), rodovia hoje apelidada de “rota da inovação” em função do grande número de empresas de tecnologia que se instalaram no trecho que liga a região central ao Norte da Ilha.

Com instalações inspiradas nos ambientes das empresas do Vale do Silício, espaço para eventos e um mix que inclui empresas de médio porte, startups, incubadoras, aceleradoras, fundos de investimento e coworking, o Centro de Inovação se tornou rapidamente no epicentro do setor de tecnologia na cidade – só em 2017, mais de 57 mil pessoas participaram de eventos e encontros promovidos no local.

O sucesso motivou à criação de outros espaços com esse perfil em Florianópolis. Neste ano, a Prefeitura lançou em parceria com a Acate a Rede de Centros de Inovação, que vai unir quatro empreendimentos – na região central, na SC-401 e no Sapiens Parque, norte da Ilha – destinados ao desenvolvimento de empresas e projetos inovadores. “Nós acreditamos muito no poder de pequenos ecossistema, em que pessoas e empresas com diferentes perfis convivem num mesmo ambiente gerando novas conexões, ideias e serviços”, afirma o presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), Daniel Leipnitz.

Para ele, “a tecnologia pode ser a principal economia de Santa Catarina em 20 anos. Isso em função do crescimento orgânico do setor, o surgimento de novas empresas e a digitalização de corporações mais tradicionais, que precisam virar empresas de tecnologia. É o que está acontecendo com os bancos e as fintechs, o setor têxtil e a nanotecnologia, por exemplo”.

A primeira geração de empresas de tecnologia em Florianópolis, desenvolvida entre o final dos anos 1980 e início dos 1990, foi formada em sua maioria dois perfis de empreendedores: eram egressos do setor público interessados em desenvolver projetos próprios ou então recém-formados que não tinham lugar para trabalhar, mas que queriam se manter na cidade – assim surgiram empresas como Reivax, Reason, Softplan, AltoQI e Nexxera, por exemplo.

Uma delas, a Softplan, tornou-se a maior empregadora de Florianópolis. São cerca de 1,5 mil colaboradores, que se dividem entre três unidades de negócio em que a empresa atua: construção civil, gestão pública e judiciário. Responsável por grandes projetos em cada uma das unidades – de softwares de gestão para obras públicas e privadas à informatização de tribunais de Justiça – a Softplan viu a necessidade de se reinventar nos últimos anos. Era preciso entender a transformação digital que afetava os mercados em que atuava e desenvolver processos e projetos inovadores como se fosse uma startup.

Hoje, em uma moderna sede (inserir dados gerais) no Sapiens Parque, a empresa se transformou praticamente em um celeiro de startups. Na unidade de gestão pública, por exemplo, “incubou” novos projetos como a WeGov – que desenvolve um programa de inovação para entidades públicas nas três esferas – e a 1Doc, plataforma para digitalização de documentos e processos nas prefeituras. Na área de construção civil, abriga a Construtech Ventures, uma venture builder que seleciona, acelera e investe em startups que desenvolvem soluções para a cadeia construtiva e imobiliária.

E entre as ações da unidade de Justiça está o apoio e promoção de maratonas de desenvolvimento como o Global Legal Hackathon, realizada simultaneamente em 25 países – a edição brasileira foi justamente em Florianópolis, na área de eventos da Softplan.