Vinicius Roveda: Lições de um CEO de alta performance

Aos 34 anos, Vinícius Roveda costuma elencar algumas das razões para o sucesso de sua empresa, como o equilíbrio constante entre vida pessoal e profissional, aliado a um conceito sólido dos valores adotados.  Considerada uma das startups mais promissoras do Brasil, a firma com sede em Joinville – especializada em plataforma online para controle financeiro de pequenas empresas – já atendeu a mais de 250 mil empresas em pouco menos de seis anos de atuação e cresce a níveis estratosféricos. Atualmente, pelo menos 25 mil empresas começam a utilizar os produtos ofertados pela ContaAzul todos os meses, o que confere à companhia uma performance invejável mesmo em níveis internacionais. Mas a trajetória do executivo chefe da ContaAzul nem sempre foi em céu de brigadeiro.

O CEO começou sua aproximação com os softwares de gestão empresarial online aos 17 anos, quando trabalhava como desenvolvedor na Tecnosystem. Naqueles dias, os verbos eram estudar, trabalhar e, talvez, fundar um negócio. Só que após um ano desenvolvendo o produto, a primeira versão do software da sua futura empresa não alcançou o resultado esperado. O produto não envolvia totalmente os clientes, e a experiência ainda não era a ideal. A falta de conhecimento de um modelo de negócio também afetou a formatação da empresa. Foram precisos mais três anos de muita dedicação para que fossem feitos os ajustes necessários para o início da decolagem.

A sorte começou a mudar quando Vinícius e os sócios, José Sardagna, João Zaranite e Marcelos dos Santos, participaram em São Paulo do GeeksOnAPlane, o grande encontro de investidores, startups e executivos. Uma das maiores aceleradoras norte-americanas, a 500 Startups, comprou a ideia do que viria a ser a ContaAzul e levou os empreendedores para um programa no Vale do Silício. Nos Estados Unidos, tiveram que redefinir a marca, melhorar os processos e a experiência do usuário e conseguiram figurar no portal TechCrunch, a bíblia das startups. Ao final da aventura americana, fecharam uma rodada de investimentos com a Monashees e voltaram ao Brasil.

Em 2012, novas seções de investimentos, com a Ribbit Capital, Valar Ventures e a Tiger Global moldaram definitivamente a sorte da empresa. O crescimento que veio a partir daí visou a busca constante de inovação, onde a aproximação com engenheiros e experts em sua área de atuação foi uma constante. O reconhecimento do mercado não tardou a chegar, e as ações disruptivas em inovação para o mercado de PMEs fizeram com que a empresa fosse elencada como uma das startups mais promissoras do país. Em 2014, a ContaAzul foi eleita pela Fast Company como uma das empresas mais inovadoras da América Latina.

Outro ponto de destaque nessa trajetória incrivelmente ascendente foi a integração a uma grande instituição bancária, que permitiu aos clientes o acesso ao extrato de conta corrente para dentro do sistema. Com a expansão do modelo de negócio, a empresa viria a adquirir a Wabbi, focada em contabilidade em nuvem, firmou parceria com a Stone, especializada no pagamento em diferente plataformas digitais, e integrou-se com a Tray, unidade de e-commerce de Locaweb.

 

Filosofia azul

O atendimento ao cliente sempre foi uma área extremamente sensível para a empresa. Por isso, uma gestão horizontal, onde as decisões são tomadas com transparência fazem parte do DNA da firma, desde os primeiros dias. O objetivo é fazer com que o produto possa ser amigável a muitos perfis de empresários, desde aqueles conectados à tecnologia e que sabem valorizar as vantagens da nuvem até os que usam um livro de contas para gerir o negócio.  Um dos pilares fortes nos primeiros anos e quem mantém até hoje é o atendimento.

Nos quatro primeiros anos de vida, a venda direta era o foco, depois o marketing digital ganhou a preferência. Com o crescimento, os processos foram se sofisticando e a marca ganhou mais espaço. De acordo com Roveda, chegou um momento em que era hora de melhorar as relações com os escritórios contábeis e mudar o modelo. “Hoje temos uma pegada de educação, criamos o Dia D ContaAzul, que é um evento gratuito para contadores que buscam atualização diante das mudanças do mercado”, revela.  Através de exemplos reais de empresários contábeis, o evento mostra novas formas de trabalhar com organização e produtividade, aproximando clientes e criando oportunidades de crescimento para as empresas de contabilidade.

O evento, realizado durante dois dias em diversas cidades brasileiras, inclui a realização de palestras, espaço para discussão e networking e dedica o segundo dia para treinamento, atualização e certificação. Até a primeira semana de agosto de 2018, foram realizados 28 eventos nesse perfil, e entre os dias 16 e 17 de outubro, em São Paulo, a empresa vai realizar o ContaAzul, considerado o mais completo evento de contabilidade e tecnologia da América Latina, com a presença de palestrantes nacionais e internacionais, como Doug Sleeter, responsável pela criação do maior evento de contabilidade dos Estados Unidos, o Accountex.

Segundo Vinicius Roveda, um ponto sensível na condução da empresa, que já fez com que quase 6 milhões de empresas acessassem às soluções oferecidas em apenas seis anos de vida, é a constante reinvenção. Se nos primeiros anos o papel do CEO contava com um desafio novo todos os dias, onde era preciso fazer quase tudo, como atender cliente, direcionar produto, discutir campanhas de marketing e pagar contas, hoje a complexidade exige delegar funções. “Por mais que você tenha se preparado, na vida real é diferente. A grande competência que eu aprendi é a capacidade de aprender rápido e se adaptar às mudanças”, avalia. Para Roveda, os CEOS que conseguem superar os desafios que um rápido crescimento pede, devem ter um coaching para ajudar no dia a dia. Tudo o que acontece em uma empresa que ganha uma velocidade de alta performance é novidade por isso o grande desafio de um CEO é tentar antecipar o próximo ciclo e estar preparado para ele, com pelo menos um passo à frente. Nesse sentido, ele revela que um encontro regular que mantém com outros executivos americanos, em diferentes níveis de crescimento de suas empresas, ajuda bastante na hora de verificar erros comuns e apontar saídas. “Cada vez mais nosso trabalho é deixar muito clara a visão e o propósito da empresa. Se nos primeiros anos a formatação não é tão clara, um direcionamento certo encurta o caminho e agrega pessoas com os mesmos propósitos e mais engajadas”, ensina. Para Roveda, o objetivo de um líder é fazer com que a visão e o propósito da empresa sigam nos trilhos. “Empresas de alta performance exigem alta performance dos colaboradores. Tem empreendedores que gostam de abrir um negócio e vender logo em seguida, já o meu perfil é ficar 10 ou 15 anos em um negócio. O objetivo de virar unicórnio, ou seja, construir uma empresa de 1 bilhão de dólares, por si só não faz sentido se não houver por trás o objetivo nobre e impactante de ajudar a sociedade”, costuma definir.

Entre as lições aprendidas pelo comandante da ContaAzul nesses anos de intenso crescimento, onde empreender tornou-se uma verdadeira maratona, destaca-se o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A alta performance exige a superação de problemas psicológicos, o drible aos “burn outs” e muita concentração. “É como um jogador que vai para a balada à noite e não consegue jogar no outro dia, então a alta performance de um empreendedor depende da mesma coisa. Um negócio de alto crescimento tem características próprias Quando se cresce 100% ao ano isso exige uma complexidade alta, nível de crescimento alto e tudo muda muito rápido. Precisa de uma capacidade de adaptação muito forte, porque quem capta dinheiro de venture captures precisa crescer e tem de estar bem preparado. O que você prometeu foi entregue? qual a sua capacidade de execução?”, questiona Roveda.

Seguindo a filosofia da empresa, que propõe encurtar distâncias entre as operações contábeis – através de programas muito mais ágeis do que os procedimentos utilizados até agora – Vinícius Roveda acredita que se uma empresa cresce 100% ao ano, as pessoas que nela trabalham também precisam crescer 100% ao ano.  “Uma das coisas que eu aprendi, depois de errar bastante, é que trazer uma pessoa que já fez e já tem experiência, mesmo que custe caro, é melhor que conviver dois anos com um problema, é melhor ganhar tempo e resolver em seis meses”, diz. Por outro lado, trazer um executivo de uma empresa madura pode ser arriscado já que ele não irá se adaptar a uma empresa de alto crescimento. Nesse momento, o CEO tem de tomar a decisão correta, mesmo que isso não seja simpático. “Às vezes o final não é feliz, tem aquele funcionário superengajado, com dois anos de empresa, mas que não acompanhou a velocidade, aí tem que tomar a decisão de trazer um cara mais apto que ele, então às vezes o CEO tem que tomar essa decisão para que a empresa ganhe a velocidade correta, por isso é preciso pulso firme para tomar as decisões difíceis e de forma rápida, porque quanto mais postergar pior será”.

Para Roveda, os CEOs que estão em um estágio mais avançados não podem descuidar da gestão e isso implica uma equipe treinada, onde as performances devem ser bem avaliadas, sob risco de os melhores simplesmente irem embora. “A melhor performance não diz respeito apenas ao resultado, mas o respeito aos valores, não a qualquer custo, mas acreditando que assim o seu negócio irá funcionar. O que mais faz a gente ter combustível para vencer é ter certeza de que vai dar certo”, assegura Roveda. Para ele, empreender não é fácil, por isso um CEO precisa seguir um propósito empresarial que se conecte com seu propósito pessoal. “Saber que em pouco tempo poderemos ter 1 milhão de clientes e gerar mais empregos, agregando sucesso ao negócio e ao país, isso me estimula demais, pois se trata do futuro que o país e meus filhos irão viver”, conclui o idealizador da ContaAzul.

 

 

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