O que nós aprendemos quando somos forçados a mudar?

Juliana Proserpio 28/04/2020
Juliana Proserpio 28/04/2020

Todos ao redor do mundo estão mudando a maneira como vivem. Pediram para que deixássemos nosso conforto de lado em prol da saúde dos outros. Será que os designers centrados no humano também deveriam estar pensando em mudar?

Uma das mudanças mais proeminentes acontecendo globalmente é deixar o pensamento individualista de lado para dar lugar a um mais focado na sociedade. Designers deveriam pensar o design menos em termos de centrado no ‘humano’, e mais centrado na ‘sociedade’.

Parte dessa nova perspectiva significa tornar-se confortável com a complexidade.

O que isso implica para os processos típicos de design? Significa que quando projetarmos tendo em mente nosso usuário, nós precisamos pensar no impacto que o nosso produto ou serviço terá em maior escala. Quais são as outras camadas da sociedade que cercam nosso usuário, e quais são os efeitos que esse novo produto e serviço tem?

Vamos usar como exemplo os aplicativos de carona. Eles proporcionam uma experiência incrível para seus usuários, mas para os motoristas pode ser totalmente diferente. Qual o real efeito que esses aplicativos têm na vida deles? Em algumas circunstâncias um motorista pode trabalhar 12 horas por dia só para cobrir os gastos com o veículo. Eles mal conseguem se sustentar nessa nova economia.

O que acontece se nós mudarmos para um design mais centrado na sociedade?

Quando isso acontece uma camada adicional de complexidade é adicionada à equação. Não estamos pensando somente em agendar corridas, mas em projetar uma vida sustentável para os motoristas.

Isso é uma mudança importante na maneira de pensar no impacto que causamos no mundo, as ações de cada indivíduo podem ter um efeito global. Estamos aprendendo a entender as complexidades dos nossos sistemas. A crise global que estamos vivendo agora expôs uma fissura grande e crescente: não estamos desenhando para sistemas inteiros.

Mudança Global Versus Soluções Locais

Estamos experienciando um problema global e o tratando localmente. Como designers, fomos treinados para focar em nossas comunidades locais para cocriar soluções. Agora é o momento perfeito para mudar nosso mindset. Problemas globais precisam de soluções globais. Essa pandemia não é um problema apenas para a China, Itália e Austrália. É um problema global. Se mudarmos nossa maneira de pensar para uma escala global nos tornaremos designers mais fortes e cidadãos empoderados.

Mudança acontece um passo de cada vez

Como designers temos que ser otimistas para que possamos criar soluções novas e interessantes. Precisamos fazer perguntas como: Quais os problemas sociais? Quais as necessidades da sociedade? Quais as tecnologias emergentes que as pessoas estão adotando nesse momento? São grandes perguntas, mas se não as fizermos no começo de nossa jornada, corremos o risco de cometer os mesmos erros do passado ou pior, criando soluções que pioram os problemas ao invés de solucioná-los.

Como devemos começar a pensar em resolver essas questões? Um passo de cada vez. Comece fazendo perguntas como: como podemos fazer melhor pelos nossos usuários? Como podemos adicionar mais camadas de stakeholders para criar um design mais sistêmico? Se tentarmos resolver todos os problemas de uma vez, iremos falhar. Mas se pegarmos uma camada por vez, vamos começar nossa jornada em direção a um entendimento mais profundo e a melhores resultados para nosso mundo.

Quatro princípios para guiar o pensamento sobre o futuro

Temos quatro princípios guia para pensar sobre o futuro. Eles são passos que refinamos ao longo de anos para criar resultados melhores para nossos sistemas e sociedade.

1 – A Partir das Pessoas

O desenho de futuro deve ser sempre orientado por pessoas, e não apenas por melhorias tecnológicas. Todo design de futuro é intencional e precisa ser projetado por pessoas para servir a toda sociedade.

2 – Emergência

Muitas pessoas pensam sobre o futuro olhando exclusivamente para tecnologias emergentes. Acreditamos em examinar também comportamentos emergentes, culturais, e movimentos político-sociais. Definimos emergência como coisas que começam de baixo para cima, mas que não se massificaram, e que a maioria das pessoas ainda não as percebeu.

3 – Ético e diverso

Toda criação de um futuro desejável é um ato político, e deve, portanto, ser ética e diversa. Projetar futuros deve ser uma tarefa colaborativa, inclusiva e ética.

4 – Uma possibilidade

O futuro é sempre uma possibilidade, e não um destino. Como um ato intencional de mudança, e como designers de futuros, precisamos ver o futuro como um espectro de possibilidades, onde coisas imprevisíveis podem acontecer. E como eventos inesperados podem alterar o caminho do futuro, é sempre bom lembrar que qualquer futuro é ainda somente uma possibilidade. Isso significa que ainda temos o poder de gerar mudança.

Projetamos esses quatro princípios para nos ajudar a criar futuros desejáveis. Eles estão longe das distopias, visões de futuro que são geralmente apocalípticas ou negativas. Por outro lado, não estão próximos a utopias, normalmente fictícias e idealistas. Futuros desejáveis são futuros preferíveis alcançáveis, projetados cocriativamente, trazendo diversidade das pessoas, formas emergentes e éticas do futuro que ajudam a nos mostrar como chegar nesses futuros melhores.

Nesse momento, você deve estar se perguntando: para onde queremos chegar? E como fazer isso?

Gostaria de deixar você com esse pensamento final:

“É impossível prever exatamente o que vai acontecer. O futuro não é uma previsão, mas uma série de possibilidades. Precisamos especular possibilidades para tornar as que desejamos mais prováveis, porque elas são nossos futuros preferíveis”.

Sobre a Echos – Laboratório de Inovação

Em 2011, o administrador de empresas Ricardo Ruffo e a designer Juliana Proserpio fundaram em São Paulo a Echos – Laboratório de Inovação, empresa pioneira no Brasil em design thinking. A instituição é voltada à formação da nova geração de inovadores, assim como fomentar a cultura de renovação no país e no mundo. Com unidades no Brasil, na Austrália e em Portugal, faz parte de uma seleta lista mundial composta por 13 instituições consideradas da mais alta performance no segmento em que atua. Possui três áreas de negócios: Escola Design Thinking; InCompany; e Consultoria, que desenha soluções para situações pontuais dos clientes.

*Juliana Proserpio, Chief Design Officer, fundadora da Echos – Laboratório de Inovação.

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