Última edição Edição 262 January 2017 Assine

Enigma revelado

Por Joel Fernandes 02/01/2014
Por Joel Fernandes 02/01/2014

As pesquisas mostram que um dos grandes motivadores de abertura de empresa por conta própria é o desejo de ser dono do próprio nariz, ou seja, não trabalhar para os outros. Isto traz a perspectiva de independência, de determinar seus próprios horários e de não dar satisfação para quem quer que seja. No limite da realização é ser o rei de seu próprio reinado. Dono absoluto. Isso parece bom. Mas vamos colocar uma lupa e ver a realidade funcionando de perto. Para nos ajudar vamos comparar a empresa por conta própria com uma grande empresa e ver aonde chegamos.

Na grande empresa temos um presidente, equivalente ao dono da empresa por conta própria, e para ajudá-lo a tomar decisões tem diretores em áreas específicas, um corpo de gerentes, diversos especialistas e, especialmente, um conselho de administração que é o verdadeiro dono da empresa, pois ali estão os acionistas que investiram na organização. Na empresa por conta própria, o empresário, por não contar com colegas diretores, com gerentes, ou especialistas e, menos ainda, por não ter um conselho de administração, tem de tomar sozinho todas as decisões de seu empreendimento.

Decisões essas que, a rigor, têm o mesmo caráter – consequências, peso e implicações de uma grande organização. E sozinho tem que suportar o extraordinário peso da responsabilidade do sucesso da empresa, pois disso depende não só o seu sustento, o de sua família, o dos empregados e o das famílias de seus empregados, como ainda manter o nome limpo na praça, dar conta dos compromissos assumidos, e muito mais. A verdade muito além das aparências de alguém ser dono de seu próprio nariz é o fato de ele ser alguém totalmente solitário.

Este é o paradoxo do velho empreendedorismo. A motivação maior para abrir a empresa conduz o empresário para a solidão empresarial e isso na maioria dos casos leva ao fracasso do empreendimento. Senão vejamos.

O fato do dono da empresa ser dono absoluto de sua empresa significa, em termos de gestão, que ele não tem que prestar contas para ninguém. Ele funciona como um super-homem que resolve tudo sozinho. De um lado, ele não é obrigado a fazer a separação de contas bancárias da pessoa física e da pessoa jurídica. Não é obrigado a fechar o caixa todos os dias. Não é obrigado a fazer o demonstrativo de resultados todo mês. Ele não é obrigado sequer a verificar se o seu negócio é lucrativo. Mas, por outro lado, ele não tem nenhuma blindagem ou proteção em relação às pressões familiares por mais gasto, ou pressões sociais para mostrar sinais de prosperidade, ou para manter os parentes no negócio, independente de competências ou perfis inadequados.

A combinação destes dois lados da moeda (ser dono absoluto e estar completamente vulnerável às pressões familiares e sociais) faz com que ele acabe metendo a mão no baleiro (no caixa da empresa) e não adotando as melhores práticas de gestão.

Por outro lado, um presidente de uma grande empresa, que não é dono absoluto da mesma, tem que prestar contas de suas ações para um conselho de investidores. Por conta disso ele é obrigado a garantir o fechamento do caixa todos os dias, a elaborar um demonstrativo de resultados todo mês, ter um excelente plano estratégico e acima de tudo é obrigado a… mostrar lucros. Caso contrário ele é demitido (e quem demite um dono de empresa por conta própria?).

Aqui chegamos num ponto central: a única obrigação de um presidente de uma grande empresa, da qual derivam todas as outras, é saber montar e manter uma operação lucrativa, duradoura, cujos resultados sejam desproporcionais aos esforços. Exatamente por conta disso ele é obrigado a pensar grande, a inovar e adotar as melhores práticas de gestão.

Agora podemos compreender o enigma proposto. A liberdade de ser o dono do próprio nariz cobra o preço de uma liderança e uma disciplina empresarial que a maioria dos empresários não tem. De poder dizer não às demandas familiares por mais gastos, de não se deixar seduzir pelos apelos sociais de status e de conscientemente adotar as melhores práticas de gestão.

O presidente de uma grande empresa adota as melhores práticas de gestão porque precisa alcançar os melhores resultados. O dono da empresa por conta própria não adota as melhores práticas de gestão, mesmo sabendo onde buscá-las, porque: em primeiro lugar, ele se identifica com o operacional da empresa e acredita que apenas trabalhando duro vai sobreviver. Em segundo, a grande maioria não conhece a linguagem empresarial e suas ferramentas e tampouco tem habilidades para usá-las. Em terceiro lugar, não gosta dessa parte do empreendimento. E em quarto e mais importante, não precisa prestar contas para ninguém de sua gestão – logo, para ele, não faz sentido “perder” tempo fazendo registros de entradas e saídas e parar para analisar o DRE, planejamentos e fluxo de caixa, por exemplo.

A solução do paradoxo do velho empreendedorismo é adotar o papel de presidente, como se sua empresa por conta própria fosse uma grande empresa e se permitir deixar de ser dono de seu próprio nariz e se propor a prestar contas para um conselho especialmente montado para este fim. É exatamente isso que o Novo Empreendedorismo propõe – por isso o batizamos de Método do Presidente.

Comece um novo ciclo em sua gestão empresarial e dessa vez adote a maneira certa de tocar sua empresa. Pense grande. Seja o presidente que sua empresa precisa.

www.metododopresidente.com.br

Autor

  • Joel Fernandes

    Autor, entre outros, do livro "Eu quero ser empresário... Rico!" e do site wwww.metododopresidente.com.br

Comentar

Os itens com asterisco (*) são obrigatórios. Seu e-mail não será publicado.