A mulher que honrou a camisa

Dudalina Adelina Clara Hess de Souza

Dudalina Adelina Clara Hess de Souza

A decisão do que vai na capa da revista é sempre um momento crucial. Mais ainda quando se trata da primeira edição. Lembro bem da nossa discussão para lançar a revista Empreendedor, em agosto de 1994. Tínhamos em mãos diferentes matérias interessantes. Mas o que trouxe de Blumenau o jornalista Alexandre Gonçalves, no início da sua carreira profissional, na viagem que fez junto com o fotógrafo Lauro Maeda, era ouro puro de jornalismo:  a história da empreendedora Adelina Clara Hess de Souza. Uma das mulheres pioneiras no comando de empresas no Brasil, ela foi a capa da primeira edição da revista que vai completar no próximo mês 28 anos de circulação.

Lembro que ao editar essa revista, fiquei surpreso e espantado ao ver uma foto da Dona Adelina, uma mulher esguia, alta, sentada no sofá da sala da sua casa e na parede um amplo quadro, um verdadeiro painel, com a foto de cada um dos seus 16 filhos. Vou repetir: 16 filhos (12 meninos e 4 meninas), todos gerados e criados por ela e o marido Rodolfo Francisco de Souza, o Duda. “Todos bonitos e saudáveis”, costumava dizer ela com orgulho. O plano inicial deles era ter 20 filhos.

Da união familiar e dos nomes Duda e Adelina, também nasceu a indústria e a marca de camisas Dudalina.  Logo depois do casamento, ela animou o marido para colocar em prática seus conhecimentos do curso de corte e costura que fez quando tinha 15 anos. Por anos a fio, depois do primeiro filho, sempre viajavam os dois para São Paulo em busca de tecidos. O Duda dirigia a Kombi e ela ao lado levava sempre um dos filhos no colo, aquele menino ou menina que naquele momento precisava ainda mamar.

O marido, sempre de boa vontade, num dia que foi sozinho para São Paulo, retornou sorridente e feliz por ter feito o que considerou a melhor compra da sua vida: 600 metros de seda, de ótima qualidade, que adquiriu de um turco, para pagar em 12 vezes, sem juros. A compra foi boa, sem dúvida. Só que ninguém mais queria usar vestido de seda. Estava fora da moda. Toda aquela quantidade de tecido, sem fim, encalhou e entulhava a casa inteira da família.

Aí Dona Adelina teve uma ideia para fazer render o “presente turco”. Começou a produzir camisas com aquela seda toda. Fez uma, duas, três e vendeu tudo ali mesmo em Luiz Alves, sua pequena cidade natal onde moravam. Não demorou muito tempo, contratou duas costureiras. Como não tinha dinheiro para comprar as máquinas de costura, passou a fazer uma espécie de aluguel. A costureira trazia a máquina de casa e a Dona Adelina pagava um aluguel. Ela mesmo ia vender nas lojas de Luiz Alves e nas cidades vizinhas.

Assim nasceu a Dudalina, de um novelo que a ponta saiu da própria casa onde moravam até chegar ao parque industrial de Blumenau e se tornar a maior indústria de camisas da América Latina. Em 1994, contava com 900 funcionários, produzia 6 mil camisas por mês e faturou nesse ano 27 milhões de dólares.

A rotina diária da Dona Adelina era acordar as 5 horas da manhã. Primeiro amamentava um ou dois filhos. Depois ia direto para o trabalho. Todo dia também reservava um tempo para cuidar do jardim da sua vistosa casa. Por diversos anos ganhou o titulo de cuidar do “jardim mais bonito de Blumenau”.

Além da Dudalina, Dona Adelina empreendeu em outras frentes. Adquiriu o tradicional Hotel Himmemblau Palace, de Blumenau, construiu o Centro Empresarial Dudalina, na 15 de Novembro, principal rua da cidade, além do Hotel Fazenda Santo Antônio, em Massaranduba, cidade vizinha de Blumenau. Aos 68 anos montou ainda uma nova confecção, só de patchwork (roupas de retalhos) que virou sua grande paixão.

Ela morreu em 2008 aos 82 anos. Depois de 5 anos da sua morte, a Dudalina comandada pela filha Sonia Regina foi vendida para dois gestores de fundos americanos. Em 2014 a Retoque, dona das marcas Johnn Johnn e Le Lis Blanc, adquiriu a marca e a indústria. Hoje só existe a marca Dudalina.

Os filhos, cada um seguiu um caminho. Na bagagem deles muitas divergências e até brigas, já que não contavam mais com a mão firme da mãe. Na matéria de capa que publicamos na Empreendedor Dona Adelina disse uma frase premeditória: “eu construí os trilhos e fiz o trem andar….”

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