Quando o esquecimento deixa de ser distração e pode ter relação com a depressão

Esquecer onde colocou a chave. Entrar em um cômodo e não lembrar o que foi buscar. Ler uma página e perceber, alguns minutos depois, que não absorveu nada. Perder o fio de uma conversa ou precisar anotar compromissos que antes ficavam facilmente na memória.São situações tão comuns que, muitas vezes, são atribuídas ao cansaço, à correria ou à falta de atenção. Mas, quando começam a se repetir e vêm acompanhadas de mudanças persistentes no humor, no sono, na energia ou na capacidade de realizar tarefas, podem fazer parte de um quadro de depressão.
Uma nova pesquisa publicada na Nature Medicine amplia a compreensão sobre o que pode estar por trás desses sintomas. O estudo analisou o hipocampo — região do cérebro relacionada à memória, aprendizagem e plasticidade – de pessoas com transtorno depressivo maior que não estavam em tratamento medicamentoso e encontrou evidências de alterações na neurogênese adulta, processo de formação de novos neurônios.Os pesquisadores integraram diferentes técnicas moleculares, incluindo análises genéticas, epigenéticas, espaciais e proteicas. O resultado aponta para uma interrupção ou “estagnação” de etapas do processo de neurogênese no hipocampo em pessoas com depressão, acompanhada de alterações relacionadas à plasticidade das conexões neurais, metabolismo celular, estresse e ativação imune.O achado ajuda a explicar por que a depressão não deve ser compreendida apenas como uma doença marcada por tristeza ou perda de prazer.
“Quando pensamos em depressão, ainda existe uma tendência de procurar apenas tristeza, desânimo ou falta de prazer. A pessoa pode continuar trabalhando, cuidando da casa e cumprindo compromissos, mas começa a perceber que precisa de um esforço muito maior para pensar, lembrar, decidir e organizar o próprio dia. Isso também precisa entrar na avaliação clínica”, afirma Êdela Nicoletti, diretora da DBT Brasil e do Centro de Terapia Cognitiva Veda.

O cérebro também pode “desacelerar”

A relação entre depressão e cognição não começou com o estudo da Nature Medicine. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu 49 estudos independentes e analisou 383 associações envolvendo 6.991 participantes. Os pesquisadores encontraram relações entre determinados domínios cognitivos – como velocidade de processamento, atenção, aprendizagem e memória verbal, flexibilidade cognitiva e cognição global – e diferentes aspectos do funcionamento psicossocial.Outra meta-análise, publicada em 2024, também concluiu que alterações cognitivas podem estar presentes tanto durante episódios de depressão quanto em fases de remissão.

O trabalho reuniu 99 estudos, dos quais 69 foram incluídos nas análises, envolvendo 4.639 pessoas com transtorno depressivo maior.Na vida real, isso pode aparecer de maneiras pouco dramáticas, mas incômodas. A pessoa demora mais para encontrar uma palavra, perde o raciocínio durante uma reunião, precisa reler textos, esquece tarefas, tem dificuldade para organizar a agenda ou sente que atividades que antes eram automáticas passaram a exigir muito mais concentração.“O sofrimento não acontece apenas no campo emocional. Cognição também é funcionamento. Se alguém precisa mobilizar uma quantidade enorme de energia para realizar tarefas que antes eram automáticas, isso pode aumentar frustração, sensação de incapacidade, conflitos e até o isolamento. O tratamento precisa considerar como a pessoa está conseguindo viver, e não apenas se ela relata estar mais ou menos triste”, explica Vinícius Dornelles, da DBT Brasil.

O que o estudo da Nature Medicine realmente descobriu

Apesar do impacto do resultado, os pesquisadores não afirmam que a redução ou alteração da neurogênese seja a causa isolada da depressão — ou que explique, sozinha, os esquecimentos apresentados por quem tem o transtorno.O que o trabalho oferece é uma nova evidência sobre os mecanismos biológicos envolvidos na depressão. Além das alterações na neurogênese, os pesquisadores identificaram mudanças em redes de regulação genética, plasticidade sináptica, metabolismo, equilíbrio entre sinais excitatórios e inibitórios e processos relacionados à resposta imune.A própria Nature Medicine destacou que o trabalho pode contribuir para uma compreensão mais detalhada da chamada plasticidade do hipocampo e, futuramente, para a identificação de subtipos biológicos da depressão e de possíveis novos alvos terapêuticos. Isso, porém, ainda está no campo da pesquisa.

Esquecer não significa ter Alzheimer

É justamente quando a memória começa a falhar que surge outra preocupação, principalmente entre pessoas mais velhas: será que é depressão ou Alzheimer?A resposta não está em um único sintoma.Depressão e doenças neurodegenerativas são condições diferentes, mas podem compartilhar manifestações cognitivas. Por isso, mudanças persistentes de memória ou de outras funções cognitivas não devem ser automaticamente atribuídas nem à idade nem à depressão.O alerta é especialmente importante quando há mudança significativa em relação ao funcionamento habitual.“Quando existe uma mudança importante de memória, orientação, linguagem, capacidade de administrar dinheiro, organizar medicamentos, dirigir ou executar atividades que a pessoa sempre realizou, a investigação precisa ser ampla. Tratar a depressão é necessário, mas atribuir todo esquecimento à depressão também pode atrasar o diagnóstico de outras condições”, afirma Nicoletti.Uma investigação clínica pode considerar histórico médico, medicamentos utilizados, sono, consumo de álcool e outras substâncias, condições metabólicas e cardiovasculares, além de exames laboratoriais e, quando necessário, avaliação neuropsicológica e investigação neurológica.

O sinal de alerta está na mudança

Um esquecimento isolado não permite concluir que exista depressão, comprometimento cognitivo ou qualquer outra doença. O que merece atenção é a mudança persistente no funcionamento habitual. Se uma pessoa que sempre foi organizada começa a perder prazos. Se alguém que costumava acompanhar facilmente uma conversa passa a perder o raciocínio com frequência. Se tarefas simples passam a exigir esforço desproporcional. Ou se a dificuldade de concentração aparece junto com alterações de humor, sono, energia, interesse e comportamento.Nesses casos, o esquecimento deixa de ser apenas uma característica cotidiana e passa a ser uma informação importante para a avaliação profissional.A descoberta publicada na Nature Medicine acrescenta uma nova camada a essa discussão ao mostrar que a depressão envolve mudanças complexas no funcionamento do cérebro, incluindo processos relacionados à formação de novos neurônios e à plasticidade do hipocampo.A mensagem, portanto, não é transformar todo lapso de memória em sinal de doença. É justamente o contrário: entender que cognição também faz parte da depressão e que mudanças persistentes merecem ser observadas com a mesma atenção dada aos sintomas emocionais.

Fontes científicas: Nature Medicine (2026), Clinical Psychology Review (2026) e Neuropsychology (2026).

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