A sofrência em toda a pandemia e o canto de Marília Mendonça

Uma nova palavra, em especial dedicada às mulheres, ficará estampada para sempre no dicionário popular brasileiro: sofrência. Sem um sentido exato, a sofrência é uma mistura da dor da infidelidade, sofrimento e carência, tudo ao mesmo tempo.

Ninguém como a Marília Mendonça criou, cantou e retratou tão bem essa nova palavra. Ela sempre será a rainha da sofrência. Mas muitas vezes essa sofrência é a antessala da violência verbal e física, a passagem para um redemoinho de um relacionamento abusivo.

Nesses dois últimos anos da pandemia, o abismo de conflitos entre o homem e a mulher nunca foi tão ampliado no Brasil inteiro. Só de março a abril de 2020, nos dois primeiros meses da doença, o número de feminicídio  –  quando um homem mata uma mulher – em 12 estados do país cresceu 22,2 %, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Apenas no estado do Acre, esses crimes cresceram 300%, no mesmo período se comparado com o ano anterior. Os números dessas tragédias no final da pandemia serão ainda mais surpreendentes e aterrorizantes.

Com o escritório, a loja, a escola ou a indústria inteira dentro da sua casa, devido ao isolamento social da pandemia, muitas mulheres tiveram também que lidar com os afazeres domésticos, cuidar dos filhos e ainda conviver com o tratamento desrespeitoso do companheiro ou do marido.

Nesses momentos nebulosos, o canto, a música, a voz de Marilia Mendonça na rádio ou no vídeo pela internet ou na televisão chegava até o coração de muitas mulheres como uma benção, um alívio, uma esperança.  Era sempre uma amiga que falava para uma amiga, sem querer brigar, competir. “Isso não é uma disputa. Eu não quero te provocar. Descobri faz um ano e tô te procurando para dizer. Hoje a farsa vai acabar”, diz o início da letra da música “Infiel”, um dos maiores sucessos da cantora.

Marília Mendonça pode parecer rude, cruel, mas sempre é sincera e parceira da amiga. “O seu prêmio, que não vale nada, estou te entregando. Pus as malas lá fora e ele saiu chorando. Essa competição por anos só serviu para me machucar. Tá na sua mão. Você agora vai cuidar. De um traidor, me faça esse favor”, continua a letra da música.

No final, Marília que fala por milhares de mulheres, deixa o recado: “Agora ela vai fazer o meu papel. Daqui um tempo, você vai se acostumar. E aí vai ser a ela que vai enganar. Você não vai mudar. Iê, infiel”.

No final de semana, faria um show em Piedade de Caratinga, cidade com 8 mil habitantes, situada no Vale do Rio Doce mineiro. Antes de pousar, a 4 km do aeroporto, a avião caiu num curso de água. Ali ela morreu, junto com um tio, um produtor, o piloto e copiloto.

Aos 26 anos, mãe de um filho de um ano e 10 meses, teve interrompida uma trajetória de sucessos como cantora, compositora e empresária, com letras populares, de fácil entendimento. Criou e ampliou o “Feminejo” um jeito de cantar o sertanejo feminino, um verdadeiro manual do coração partido.

Era amada por ser uma mulher comum, simples, envolvente. Não recusava um churrasco, nem uma cerveja.  “Gordinha sim. E daí? Cada um pode ser do jeito que quer”, defendia ela.

Que a palavra que a Marília Mendonça criou seja um alerta e um novo rumo da convivência humana, de respeito, de carinho e admiração de uma pessoa para outra. No entanto, por muito tempo, ficará no coração de quem a acompanhava e admirava uma grande sofrência.

Acari Amorim

Acari Amorim

Jornalista com larga experiência profissional.Foi repórter especial da Veja, editor de economia no O Globo, no Rio de Janeiro. Também integrou equipe de editores dos jornais da RBS. Fundador e diretor geral da Empreendedor

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