Sem investimento externo, o empreendedor gaúcho Kassio Seefeld (foto em destaque) criou a TruckPag, que hoje realiza mais de 210 mil transações mensais de abastecimento
Aos 18 anos, enquanto trabalhava no cargo mais baixo da hierarquia de um dos maiores bancos do país, o empreendedor gaúcho Kassio Seefeld investia o próprio salário na Bolsa de Valores. Em 2008, viu o mercado levar embora tudo o que havia conquistado e ainda acumulou prejuízo. A experiência, segundo ele, foi a primeira grande “machadada no ego”, mas também o início de uma mentalidade que definiria sua trajetória empresarial: aprender rápido com os próprios erros e pensar no longo prazo.
Após outros fracassos que viriam, o empreendedor fundou a TruckPag, startup de meios de pagamentos para frotas pesadas, que hoje administra mais de R$ 2,2 bilhões em diesel por ano no país, realiza mais de 210 mil transações mensais e opera sem investidores externos.
“Quando você pensa no curto prazo, o mercado te tira tudo. Quando pensa no longo, as decisões ficam melhores. Levei um tempo para entender que negócio de verdade não pode ser extra. Precisa de você inteiro. Quando é extra, morre como extra”, afirma o executivo.
Antes de fundar a logtech, Kassio tentou empreender diversas vezes, tanto formal quanto informalmente. Nenhuma das iniciativas prosperou. Foi justamente após essas tentativas frustradas que ele encontrou o setor que mudaria sua trajetória. A virada aconteceu em 2015, quando passou a atuar em uma empresa de meios de pagamento focada em gestão de frotas leves. Sem experiência no transporte pesado, assumiu o desafio de atender um cliente do segmento. O projeto fracassou.
“Não tinha como dar certo. O atendimento encerrava às 20h, enquanto os caminhões rodavam madrugada adentro, a rede credenciada era urbana, incompatível com operações rodoviárias e processos básicos do setor, como a coleta de notas fiscais, não funcionavam adequadamente. O cliente foi embora e aquilo ficou na minha cabeça. Percebi que existia um volume financeiro gigantesco no transporte brasileiro, mas ninguém estava olhando para a dor real do transportador. Olhavam para o dinheiro da operação, não para o cliente”, relembra.
A partir dali, Kassio mergulhou no setor. Passou cerca de seis meses dentro de uma transportadora, acompanhando de perto áreas como financeiro, fiscal, comercial e gestão de frota. O objetivo era entender onde existiam gargalos reais que poderiam ser resolvidos com tecnologia e operação especializada. Em paralelo, recebeu uma ligação de Ivo Riedi, (um dos sócios fundadores, junto com Marcos Carraro). A pergunta era simples: seria possível criar uma solução do zero voltada exclusivamente ao transporte pesado?
“Eu não tinha plano de negócio. Tinha convicção”, afirma. Em 16 de abril de 2019, a TruckPag realizou sua primeira transação em um posto de combustível. A aposta aconteceu em um setor cada vez mais pressionado pelos custos operacionais. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres, o combustível representa cerca de 40,3% do custo operacional do transporte rodoviário de cargas. Com o cenário de guerra no Oriente Médio, esses custos se intensificaram e o diesel chegou a R$ 7,28 por litro.
Sobreviver para crescer
A trajetória da empresa, no entanto, esteve longe de ser linear. Antes mesmo da fundação da TruckPag, Kassio enfrentava dificuldades financeiras severas. “Em 2016 eu tinha aluguel, água e luz atrasados. Não é figura de linguagem. Era a realidade”, diz.
Pouco depois do início da operação, veio a pandemia. Com menos de um ano de existência, sem processos estruturados ou caixa sólido, a empresa viu seu volume cair 70% em apenas uma semana.
Outro momento decisivo veio após um período de rápido crescimento. Convencido de que precisava escalar a área comercial de forma remota, Kassio contratou uma Diretora de Receita para acelerar a expansão. A estratégia não funcionou. “A resposta era óbvia. Levantar da cadeira e visitar o cliente”, afirma.
Kassio voltou para a operação comercial presencialmente e a empresa retomou o crescimento. Hoje, a TruckPag possui mais de 1390 clientes, sendo 755 da solução de Abastecimento e os demais divididos nas demais soluções que a empresa oferece , além de uma rede credenciada que conta com cerca de 4730 postos credenciados e cresce de forma 100% bootstrap. Para este ano de 2026, a projeção é crescer 40% em relação a 2025, atingir em torno de 250 a 270 mil transações mensais de abastecimento e ampliar ainda mais a presença no mercado de transporte rodoviário.
Nos últimos anos, a empresa também passou a investir fortemente em inteligência de dados. Um dos exemplos foi a projeção do preço do diesel S10 realizada pela companhia em março de 2026, antecipando o valor oficial com margem de erro de apenas R$ 0,02 por litro em relação à ANP. O levantamento fez com que a TruckPag passasse a ser citada como índice de referência de preço do diesel em todo o país.
“A margem está cada vez mais apertada. Quem não usar tecnologia para ganhar eficiência vai ficar para trás. Mas o transportador também quer confiança. No fim do dia, as empresas que conseguirem unir eficiência operacional com proximidade humana vão construir relações difíceis de substituir”, finaliza o CEO da TruckPag.



