Willian Valadão, especialista em inteligência artificial e CEO da Dynadok
Quando se fala em inteligência artificial no varejo, é comum associar a tecnologia a recomendações de produtos, chatbots, previsão de demanda e análise do comportamento dos consumidores. No entanto, uma transformação menos visível começa a ganhar espaço nos bastidores: o uso da IA para automatizar tarefas burocráticas que consomem tempo, atrasam decisões e podem impactar diretamente a experiência do cliente.
O avanço desse mercado mostra a dimensão da tendência. Segundo estudo da Mordor Intelligence, o mercado global de inteligência artificial no varejo deve atingir US$ 96,13 bilhões em 2030. No Brasil, 73% dos varejistas pretendem ampliar os investimentos em IA, de acordo com o Connected Shoppers Report, da Salesforce, e 82% acreditam que a tecnologia será fundamental para se manterem competitivos no mercado dentro de um ano.
Além das aplicações voltadas às vendas, existe um grande potencial na automação de processos documentais. Notas fiscais, comprovantes, cadastros, licenças, certidões, laudos e documentos de fornecedores circulam diariamente entre lojas, centros de distribuição, fabricantes, parceiros e consumidores. Quando a conferência dessas informações é manual, processos relativamente simples podem se transformar em longos períodos de espera.
Com inteligência artificial, documentos e imagens podem ser interpretados e validados automaticamente, reduzindo atividades que demorariam muito mais tempo a poucos minutos. Em processos de validação automatizada de documentos, a tecnologia já pode alcançar assertividade superior a 95%. Além da velocidade, a automação libera profissionais de tarefas repetitivas para que possam se dedicar a atividades que exigem análise, negociação, criatividade e relacionamento.
Essa lógica pode ser aplicada à gestão de fornecedores, com a conferência automatizada de CNPJ, certidões e licenças; à abertura de crediários e programas de fidelidade; e à logística, por meio da análise de notas fiscais, laudos de qualidade e comprovantes de transporte. Em setores regulados, como o farmacêutico, a tecnologia também pode apoiar o processamento de receitas digitalizadas, autorizações e licenças sanitárias, combinando eficiência com critérios de validação.
A discussão sobre IA no varejo, portanto, vai além de como vender mais. Ela envolve identificar quanto tempo de consumidores, colaboradores e fornecedores ainda é gasto em burocracias que poderiam ser automatizadas.
Os consumidores também demonstram receptividade. Segundo o Connected Shoppers Report, 75% têm interesse no uso de IA para aprimorar programas de fidelidade e 72% consideram a tecnologia útil para melhorar o atendimento ao cliente e oferecer respostas mais rápidas.
A próxima etapa da IA no varejo pode acontecer justamente longe das vitrines. Ao assumir parte da burocracia das operações, a tecnologia torna processos mais rápidos e eficientes e permite que as pessoas dediquem menos tempo à conferência de documentos e mais às decisões e aos relacionamentos que realmente exigem atuação humana.
Autor Willian Valadão – Natural de Resplendor (MG) e residente em Recife (PE), Willian é um empreendedor em série formado em Ciência da Computação pela PUC Minas, com pós-graduação em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral e Gestão de Projetos pelo Instituto de Educação Tecnológica. Ele é fundador e CEO da Dynadok, startup de validação documental por Inteligência Artificial. Antes, idealizou, escalou e vendeu duas startups para empresas de capital aberto: a plataforma de estudos Beduka e a plataforma de recrutamento Peixe 30. Willian também é investidor e sócio da venture builder Aleve.


