Por Lígia Lopes, CEO da Teros*
Tenho alguma resistência quando ouço que o mercado financeiro brasileiro é inovador apenas porque adotou tecnologia cedo, isso é só uma parte da história. O setor inovou, antes de tudo, porque foi obrigado a lidar com um cenário econômico difícil: juros altos, renda apertada, ciclos de inflação, câmbio instável e crédito caro. Em um ambiente assim, criar bons produtos financeiros nunca foi um exercício de sofisticação abstrata, mas sim resposta prática a um sistema cheio de fricções.
Talvez por isso o Brasil tenha desenvolvido soluções tão sofisticadas em pagamentos, parcelamento, crédito e estruturação financeira. Houve competência, claro, mas também necessidade. E necessidade, quando encontra capacidade técnica e uma cultura que é muito brasileira de adaptação, acelera aprendizado. O mercado financeiro brasileiro aprendeu a operar em condições duras e em um ambiente de comportamento extremamente particular. Isso deixa repertório, musculatura tecnológica e familiaridade com complexidade.
Ao longo da minha trajetória, trabalhando com dados, pricing, tecnologia e desenho de soluções, vi esse setor se transformar várias vezes. O que mais me chama atenção agora é que a mudança deixou de estar apenas no produto final, e passou a estar no ritmo da inovação. Durante muito tempo, mesmo quando a ideia era boa e o problema era claro, havia um intervalo grande entre enxergar a oportunidade e colocar a solução de pé.
A trava quase nunca estava na ambição, mas sim na implementação: sistemas legados, integrações pesadas, filas internas, governança mal resolvida, times tentando inovar sobre uma arquitetura que já não respondia na mesma velocidade.
É aí que, para mim, que começamos ver a diferença do momento atual. Nos últimos anos, o setor passou a operar em um ambiente muito mais conectado, e isso muda bastante coisa. O Open Finance, por exemplo, não é relevante só porque amplia o compartilhamento de dados e serviços entre instituições.
Mas sim porque altera a lógica da construção. Quando o sistema permite conexão padronizada por APIs, a inovação deixa de depender exclusivamente do que cada instituição consegue fazer sozinha, e passa a acontecer também na combinação entre capacidades, parceiros, contexto e jornada. O que antes exigia desenvolvimento isolado agora pode ser articulado em ecossistema.
Esse ponto importa porque, no setor financeiro, informação só vira valor quando entra na operação. E, às vezes, a discussão sobre dados ainda é simplista demais. Fala-se muito em volume, acesso e personalização, mas o problema real continua sendo o uso. O dado precisa chegar a tempo, com qualidade, dentro de uma arquitetura capaz de sustentá-lo sem travar o restante da organização.
Por isso, o estudo da McKinsey sobre o potencial de aumento de até 10% no PIB com Open Data me parece tão forte: ele mostra que essa agenda não é só tecnológica, e sim econômica. O mesmo vale para pricing. Quando a McKinsey aponta que 1% de ganho em preço pode gerar 8% de aumento no lucro, está mostrando como pequenas decisões melhores podem produzir efeitos muito relevantes.
Na prática, é isso que vejo há um bom tempo: o valor não está no dado em si, mas no que a empresa consegue fazer com ele. Isso inclui melhorar experiência, calibrar crédito, reduzir atrito na jornada, oferecer algo mais aderente tanto para o cliente PJ quanto para o PF. O ambiente open, somado à evolução do Pix e dos serviços que surgem em torno dessa infraestrutura, abriu uma avenida para soluções muito mais conectadas.
Mas essa avenida não beneficia automaticamente todo mundo, ela favorece quem consegue unir leitura de contexto com capacidade real de implantação.
E aqui aparece uma tensão que, para mim, é central. O setor quer inovar mais rápido, mas boa parte das empresas ainda carrega uma base tecnológica que responde no tempo antigo. Não é à toa que 80% dos líderes de tecnologia dizem que a dívida técnica será o principal impedimento à inovação em 2026, segundo estudo da OutSystems. Esse número é revelador porque desloca o debate do campo das ideias para o da execução. Muitas companhias sabem onde querem chegar, o problema é que tentam correr com uma estrutura feita para andar.
Ao mesmo tempo, a pressão para avançar só aumenta. A Gartner aponta os sistemas multiagentes como principal tendência para automatizar processos complexos de forma modular em 2026. Isso sugere um caminho com menos dependência de blocos rígidos, mais inteligência distribuída, mais capacidade de adaptação. Porém, nenhuma dessas promessas se sustenta sem confiança, e talvez esse seja o ponto mais delicado deste novo ciclo.
Quanto mais dados circulam, quanto mais personalização se promete, quanto mais conexão se cria, maior também a responsabilidade com segurança, governança e compliance. A Accenture mostra que 58% dos clientes se preocupam com a segurança dos seus dados financeiros ao aceitar ofertas personalizadas. Esse número deveria encerrar a falsa disputa entre velocidade e proteção. Não existe inovação aceita sem estrutura de confiança.
O mercado financeiro brasileiro entrou em uma fase mais exigente. Já não basta ser digital, lançar rápido ou ter acesso a mais dados. O que vai separar quem realmente avança de quem apenas acompanha o discurso é a capacidade de transformar essa conectividade em solução melhor, com menos fricção, mais precisão e responsabilidade compatível com o tamanho da exposição.
O desafio agora é outro. Não é provar que o setor sabe inovar, isso ele já provou faz tempo. Neste momento, o obstáculo é mostrar que consegue inovar nesse novo patamar sem confundir velocidade com improviso e sem tratar confiança como detalhe. É aí que o jogo fica mais interessante.
*Lígia Lopes é mestre em Economia pela USP, com experiência em consultoria econômica e banco de investimento. Especialista em inteligência de dados aplicada à análise econômica e estratégica, construiu sua trajetória unindo tecnologia e inovação.
Na Teros, estruturou as áreas de Inteligência e Pricing, liderando o desenvolvimento de soluções para otimização de preços. Desde 2021, esteve à frente da implantação de Open Finance, ampliando a oferta de serviços e consolidando a empresa no mercado. Como COO, reestruturou produto, operações e RH, preparando a Teros para escalabilidade. Em 2025, assumiu como CEO, impulsionando a expansão e o crescimento sustentável da companhia.



