Por Marcelo Fernandes, Diretor de Marketplace na Food To Save*
Durante décadas, o desperdício foi tratado pelas empresas como um custo inevitável da operação. Produtos próximos da validade, excesso de estoque e falhas de planejamento eram vistos como perdas inerentes ao negócio. Mas essa lógica está mudando.
Em um cenário de pressão constante por eficiência operacional, rentabilidade e melhor aproveitamento de recursos, empresas de diferentes setores passaram a olhar para os excedentes de outra forma. O que antes era descartado como prejuízo começa a ser reconhecido como um ativo capaz de gerar valor econômico.
A dimensão desse desafio ajuda a explicar essa mudança de perspectiva. Segundo o Índice de Desperdício de Alimentos 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mundo desperdiçou cerca de 1,05 bilhão de toneladas de alimentos em 2022 (incluindo partes não comestíveis), o equivalente a quase um quinto de todos os alimentos disponíveis para consumo.
Diante de números dessa magnitude, torna-se difícil enxergar o desperdício apenas como uma questão ambiental ou social. Trata-se também de um desafio econômico. Afinal, cada produto descartado representa recursos investidos em produção, logística, armazenamento e comercialização que deixam de gerar retorno.
O varejo alimentar está entre os setores que mais sentem essa pressão. O mesmo levantamento da ONU aponta que 12% do desperdício global de alimentos ocorre no varejo.
Isso ajuda a explicar por que a gestão de excedentes passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico nas empresas. Em vez de tratar produtos excedentes exclusivamente como perdas operacionais, muitas organizações vêm buscando formas de reinseri-los no mercado, ampliar seu ciclo de valor e reduzir impactos financeiros.
Mais do que uma mudança de processo, estamos assistindo a uma mudança de mentalidade. Historicamente, o crescimento empresarial esteve associado à expansão de vendas, abertura de mercados e aumento de produção. Hoje, a competitividade também passa pela capacidade de aproveitar melhor os ativos que já existem dentro da operação.
Essa transformação acompanha um movimento mais amplo do mercado. Consumidores estão mais atentos ao impacto de suas escolhas, enquanto empresas enfrentam margens cada vez mais pressionadas e uma demanda crescente por eficiência. Nesse contexto, reduzir desperdícios deixou de ser apenas uma prática recomendável para se tornar uma estratégia de negócio.
Isso não significa que sustentabilidade e resultado financeiro sejam objetivos concorrentes. Pelo contrário. Os modelos que mais ganham relevância atualmente são justamente aqueles que conseguem alinhar impacto positivo com geração de valor econômico.
O debate sobre desperdício precisa, portanto, evoluir. A questão não é apenas quanto estamos perdendo, mas quanto valor ainda deixamos de capturar quando tratamos excedentes exclusivamente como descarte.
As empresas que compreenderem essa mudança primeiro terão uma vantagem competitiva importante. Porque, no fim das contas, os negócios mais preparados para o futuro não serão necessariamente aqueles que produzem mais, mas os que conseguem extrair mais valor dos recursos que já possuem.
*Marcelo Fernandes é Diretor de Marketplace na Food To Save, onde lidera estratégias comerciais e de crescimento com foco na expansão do ecossistema da empresa por meio da aquisição de parceiros de grande impacto. À frente da operação, atua na integração entre as áreas de Vendas, Marketing e Growth, garantindo uma jornada alinhada desde a geração de leads até o desenvolvimento de parcerias de longo prazo. Seu trabalho é voltado à expansão de mercado, geração de receita sustentável e fortalecimento da presença da marca.
Com experiência em empresas SaaS, lidera processos, campanhas e estratégias de comunicação voltadas à aquisição e retenção de clientes, sempre com foco em performance, rentabilidade e posicionamento de marca.



