Especialista explica por que tantos brasileiros estão deixando de pagar contas

Pesquisa da PoderData mostra que 37% dos brasileiros ficaram inadimplentes em pelo menos alguma conta no último mês; especialista analisa os fatores por trás do cenário

Manter os pagamentos em dia tem sido um desafio crescente para milhões de brasileiros. Segundo levantamento da PoderData, 37% das pessoas deixaram de pagar alguma conta no último mês, um indicador que reflete a pressão financeira vivida por parte significativa da população. Com despesas essenciais consumindo grande parte da renda e pouco espaço para lidar com imprevistos, as dívidas têm se tornado uma realidade frequente no orçamento das famílias.

Para Rafaela Cavalcanti, CEO e cofundadora da CloQ, fintech que desenvolveu score comportamental para ampliar o acesso ao crédito e ajudar brasileiros a construir histórico positivo, o aumento da inadimplência está diretamente ligado à dificuldade de absorver despesas inesperadas sem comprometer gastos essenciais.

“Muitas famílias operam com o orçamento no limite. Sem uma reserva financeira para lidar com imprevistos, qualquer despesa extra pode levar ao adiamento de pagamentos e comprometer o equilíbrio financeiro do mês atual e também dos meses seguintes, dependendo deste imprevisto”, afirma a especialista.

Outro fator que contribui para esse cenário vai além da falta de acesso ao crédito: é a oferta de produtos financeiros inadequados para a realidade de cada consumidor. Disponibilizar crédito sem considerar o perfil, a renda e o momento de vida de quem contrata pode ser tão prejudicial quanto a ausência de crédito.

“Existe uma analogia interessante com a alimentação. Qualquer pessoa pode desenvolver problemas de saúde não por comer demais, mas por consumir alimentos de baixa qualidade nutricional, incompatíveis com o que o seu organismo processa bem. Com o crédito, a lógica é parecida: o problema não é necessariamente o volume, mas a adequação. Um produto pensado para quem ganha dez salários mínimos não serve para quem ganha dois. O timing também importa — assim como comer na hora certa faz diferença, contratar crédito no momento errado agrava a situação. E, assim como precisamos exercitar o corpo, precisamos exercitar o hábito de poupar”, compara Rafaela.

Nesse contexto, a inclusão financeira responsável ganha relevância. A CloQ atua justamente nessa direção: em vez de oferecer crédito a qualquer custo, a fintech utiliza tecnologia e modelos alternativos de análise para entender o perfil real de cada cliente e oferecer condições compatíveis com sua capacidade de pagamento.

“O crédito deve funcionar como uma ferramenta de apoio, disponível quando necessário e calibrada para a realidade de quem contrata. Empurrar produtos financeiros inadequados para quem já está vulnerável não é inclusão — é aprofundar o problema”, conclui a CEO da CloQ.

O avanço da inclusão e educação financeira, aliados ao desenvolvimento de produtos mais aderentes à realidade da população, será fundamental para reduzir os índices de inadimplência e ampliar o acesso dos brasileiros ao sistema financeiro formal.

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