À frente do Alma Preta Jornalismo e do Notícia Preta, empresária Elaine Silva destaca os desafios de conquistar credibilidade, acessar investimentos e consolidar negócios em um mercado ainda marcado por desigualdades raciais e de gênero
Abrir uma empresa exige planejamento, investimento, conhecimento de mercado e capacidade de gestão. Entretanto, para mulheres negras no Brasil, o empreendedorismo também envolve enfrentar obstáculos que dificilmente aparecem nos planos de negócios. Além das dificuldades comuns a qualquer empresário, questões como racismo estrutural, desigualdade de gênero, acesso limitado a recursos financeiros e resistência ao reconhecimento de sua capacidade de liderança continuam influenciando as oportunidades de crescimento e consolidação empresarial.
Para Elaine Silva, empresária à frente do Alma Preta Jornalismo e do Notícia Preta, empreender sendo uma mulher negra significa lidar com desafios que vão além da administração de uma empresa. Sua atuação no setor de comunicação evidencia a importância de ampliar a presença de mulheres negras não apenas na produção de conteúdo, mas também na gestão de negócios, nas decisões estratégicas e nas relações comerciais que movimentam o mercado.
“Quando uma mulher negra decide empreender, ela não está lidando apenas com os desafios naturais de qualquer negócio. Muitas vezes, precisa demonstrar sua competência repetidamente, conquistar uma credibilidade que nem sempre é exigida de outros empresários e encontrar caminhos para acessar oportunidades que deveriam estar disponíveis de maneira igualitária. Existe uma diferença entre ter capacidade para administrar uma empresa e encontrar um mercado disposto a reconhecer essa capacidade”, afirma Elaine Silva.
Um dos principais desafios está na construção de relacionamentos comerciais e no acesso a oportunidades de investimento. Embora o debate sobre diversidade tenha conquistado espaço nas estratégias institucionais de grandes empresas, a presença de mulheres negras nas cadeias de fornecedores, nas negociações de contratos e nos ambientes de decisão ainda precisa avançar. Para empreendedoras que atuam em segmentos competitivos, como comunicação, publicidade e tecnologia, a dificuldade de acessar essas redes pode limitar a expansão de negócios e a conquista de novos clientes.
Na avaliação de Elaine, é necessário que o mercado compreenda o empreendedorismo negro também a partir de sua relevância econômica. Isso significa reconhecer empresas lideradas por pessoas negras como organizações capazes de entregar resultados, gerar empregos, desenvolver soluções e estabelecer relações comerciais sustentáveis.
“Precisamos avançar de um cenário em que mulheres negras são lembradas apenas quando o assunto é diversidade para outro em que também sejam reconhecidas por sua capacidade de gestão, inovação e desenvolvimento de negócios. Não basta convidar uma empresária negra para participar de uma campanha institucional se, na prática, sua empresa não é considerada para contratos, investimentos e parcerias estratégicas. A inclusão precisa acontecer também na distribuição das oportunidades econômicas”, destaca.
Outro aspecto importante é a pressão enfrentada por mulheres negras que ocupam posições de liderança. Em muitos casos, além de administrar equipes, desenvolver estratégias e garantir a sustentabilidade financeira das empresas, essas profissionais precisam enfrentar questionamentos sobre sua autoridade e competência. Esse cenário evidencia como as desigualdades raciais e de gênero podem interferir diretamente nas relações profissionais e na percepção de valor atribuída aos negócios.
A experiência de Elaine no comando de empresas de comunicação também reforça a necessidade de ampliar o debate sobre propriedade e poder econômico. Para ela, garantir a presença de profissionais negros no mercado é importante, mas assegurar que essas pessoas possam criar, administrar e expandir suas próprias empresas representa um avanço igualmente necessário.
“Existe uma diferença muito grande entre ocupar um espaço dentro de uma empresa e ter autonomia para construir o próprio negócio, tomar decisões e definir os caminhos de crescimento. Quando uma mulher negra lidera uma organização, ela também participa da construção de oportunidades para outras pessoas. Mas essa responsabilidade não pode ser utilizada para romantizar as dificuldades que enfrentamos. Precisamos de condições concretas para crescer, competir e prosperar”, pontua.
Para a empresária, o fortalecimento do empreendedorismo feminino negro depende de mudanças que envolvem o setor privado, instituições financeiras e políticas de desenvolvimento econômico. Ampliar o acesso ao crédito, diversificar redes de fornecedores, estabelecer relações comerciais mais inclusivas e reconhecer a capacidade técnica de empresárias negras são medidas fundamentais para transformar o discurso de igualdade em oportunidades reais.
“Empreender não deveria exigir que uma mulher negra precisasse provar o tempo inteiro que merece estar onde está. O que queremos é ter a possibilidade de competir em condições justas, acessar investimentos, conquistar grandes contratos e construir empresas sólidas. O nosso objetivo não é apenas ocupar espaços, mas participar efetivamente das decisões econômicas e do desenvolvimento do país”, conclui Elaine Silva.
Mais do que uma discussão sobre representatividade, o empreendedorismo feminino negro coloca em evidência a necessidade de rever estruturas que ainda dificultam a distribuição de oportunidades no ambiente empresarial. Reconhecer essas barreiras é parte do processo de construção de um mercado mais competitivo, diverso e capaz de valorizar diferentes trajetórias de liderança.



