Em uma rotina marcada por notificações e interrupções constantes, a dificuldade de concentração pode afetar a formação de memórias. A neuropsicóloga Adriana Fóz explica por que a atenção é fundamental para lembrar e questiona a ideia de que o cérebro é capaz de realizar várias tarefas ao mesmo tempo
Entrar em um cômodo e esquecer o que foi buscar. Pegar o celular para responder a uma mensagem e, minutos depois, perceber que já está fazendo outra coisa. Terminar o dia com a sensação de ter resolvido inúmeras demandas, mas sem conseguir se lembrar direito de parte do que aconteceu. Na rotina hiperconectada, esses episódios são cada vez mais familiares e alimentam a impressão de que nossa memória está falhando.
Mas será que estamos esquecendo mais ou estamos prestando menos atenção ao que vivemos? A relação entre atenção e memória ajuda a compreender por que tantas pessoas sentem dificuldade para se concentrar em meio a tantos estímulos. Segundo a neuropsicóloga Adriana Fóz, a atenção tem um papel fundamental na formação das memórias: “Para que uma informação seja registrada e possa ser recuperada posteriormente, ela precisa ser processada pelo cérebro. Quando o foco está voltado para outra coisa, nem tudo o que acontece ao nosso redor é devidamente assimilado”, diz ela.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que interromper uma atividade repetidamente pode prejudicar a concentração. Responder a uma mensagem durante uma reunião, conferir as redes sociais enquanto se lê um texto ou alternar entre diferentes demandas ao longo do dia exige mudanças sucessivas de foco. A cada interrupção, precisamos retomar o raciocínio e recuperar o contexto daquilo que estávamos fazendo.
“Um dos equívocos mais comuns sobre o funcionamento cerebral é acreditar que conseguimos realizar várias tarefas cognitivamente exigentes ao mesmo tempo, mantendo a mesma qualidade de desempenho. Embora o cérebro seja capaz de processar diferentes estímulos simultaneamente e de dividir a atenção em determinadas condições, nossos recursos atencionais são limitados. Quando duas atividades exigem atenção consciente, memória de trabalho e controle executivo, geralmente ocorre uma competição por esses recursos. Assim, em muitas situações, o que chamamos de multitarefa é, na verdade, uma rápida alternância do foco atencional entre atividades, o que pode aumentar o tempo de execução e a ocorrência de erros”, explica a neuropsicóloga Adriana Fóz.
As consequências vão além da sensação de cansaço mental. Quando a atenção é fragmentada, podemos deixar de assimilar informações importantes, o que compromete a possibilidade de lembrá-las depois. “Em outras palavras, nem todo esquecimento representa uma falha da memória propriamente dita. Em alguns casos, a informação sequer foi registrada de maneira suficientemente consistente para ser recuperada”, alerta Adriana.
Isso não significa, entretanto, que todo lapso de memória seja resultado do excesso de telas. A qualidade do sono, o estresse e o cansaço também podem interferir na atenção e nos processos de memorização. Observar esses fatores é importante para compreender o que pode estar por trás das dificuldades cotidianas de concentração.
Hábitos como ler sem consultar o celular a todo momento, concluir uma atividade antes de iniciar outra e criar períodos com menos interrupções podem favorecer uma relação mais consciente com a atenção. Não se trata de eliminar todos os estímulos ou exigir concentração absoluta o tempo inteiro, mas de reconhecer que o cérebro precisa de condições para processar as informações que recebe.
“Costumo dizer que talvez estejamos vivendo um paradoxo da memória: nunca tivemos acesso a tantas informações e, ao mesmo tempo, nem sempre dedicamos a elas a atenção necessária para transformá-las em lembranças. É como se vivêssemos uma espécie de memória líquida, na qual muitas experiências passam rapidamente por nós, sem que tenhamos tempo ou disponibilidade cognitiva para elaborá-las”, relata Adriana.
Isso não significa necessariamente que estejamos perdendo a capacidade de memorizar, mas que a fragmentação da atenção pode prejudicar a codificação e a recuperação posterior das informações. “Embora nem toda aprendizagem dependa de atenção consciente e deliberada, ela é fundamental para a formação de muitas das memórias que construímos no cotidiano. Afinal, antes de nos preocuparmos com aquilo que esquecemos, precisamos refletir sobre o quanto realmente prestamos atenção ao que vivemos”, conclui Adriana Fóz.
Sobre Adriana Fóz
Adriana Fóz é neuropsicóloga, psicopedagoga, professora e palestrante, com mais de 35 anos de trajetória profissional. É mestre em Ciências pelo Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em Neuropsicologia pelo CDN/Unifesp, diretora da NeuroConecte e pesquisadora em neurociência cognitiva e educacional. Seu trabalho integra conhecimentos sobre cérebro, emoções, cognição e comportamento para promover a saúde mental e emocional, a aprendizagem, e o desenvolvimento humano. Autora dos livros Cérebro Extraordinário – Uma jornada sobre como aprender, transformar e se reinventar; Como lidar com frustrações: a ciência por trás das boas decisões; Frustração e A Cura do Cérebro. Em suas obras, aborda temas como competências emocionais, superação de adversidades, plasticidade cerebral e emocional. Sua trajetória profissional é marcada ainda pela experiência pessoal de recuperação de um acidente vascular cerebral (AVC), que ampliou sua perspectiva sobre a capacidade humana de adaptação e reabilitação, tornando-se base para seu trabalho.
Palestrante do TEDx, onde abordou a plasticidade emocional, conceito criado por ela. Adriana também desenvolveu uma metodologia educacional e digital que ensina estudantes do ensino médio a reconhecer sinais de AVC e a acionar rapidamente o socorro. Com educação entre pares e tecnologia acessível, o programa prepara os jovens para disseminar esse conhecimento em suas famílias e comunidades, conectando saúde e educação.
Recentemente, Adriana foi anunciada como a única brasileira entre as 20 vozes de maior impacto mundial na causa do AVC, reconhecimento concedido pela World Stroke Organization (WSO), uma das principais organizações internacionais dedicadas à prevenção, ao tratamento e à conscientização sobre o AVC.



