Transformar um atendimento especializado em uma operação capaz de crescer sem comprometer a qualidade é um dos desafios do Grupo Conduzir, organização fundada em 2012 e dedicada ao atendimento de pessoas autistas. Sob a liderança da Dra. Renata Michel, a empresa tem concentrado esforços no fortalecimento das unidades existentes, na padronização de processos clínicos e no desenvolvimento de soluções tecnológicas para apoiar a gestão.
Com quatro polos de atendimento, três no estado de São Paulo, na capital, em Campinas e em Bragança Paulista, e um em Niterói, no Rio de Janeiro, o grupo já impactou mais de mil famílias e reúne mais de 300 profissionais envolvidos direta ou indiretamente nas atividades.
A estratégia, neste momento, não é acelerar a abertura de novas unidades, mas ampliar o aproveitamento da estrutura instalada e preparar a operação para crescer de forma sustentável.
“Antes de avançar com novas unidades, queremos aumentar a utilização da capacidade instalada, fortalecer as unidades existentes e preparar a organização para crescer de forma sustentável”, afirma Renata.
O desafio está em garantir que a expansão não dependa exclusivamente da experiência individual dos profissionais. No atendimento baseado em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), a consistência clínica exige protocolos, supervisão, formação continuada e mecanismos de avaliação dos resultados.
“A escala só é sustentável quando a qualidade deixa de depender exclusivamente de indivíduos e passa a estar incorporada ao sistema”, diz a executiva.
PhD em Psicologia Experimental e certificada BCBA-D, Renata iniciou a carreira no atendimento e na supervisão de equipes. Com o crescimento do Grupo Conduzir, passou a dedicar mais tempo às decisões relacionadas a investimentos, eficiência operacional, gestão de riscos e governança. Sua formação executiva na London School of Economics (LSE) e os estudos para atuação em conselhos, na Saint Paul Escola de Negócios, fazem parte dessa transição para uma gestão com foco estratégico.
Tecnologia e inteligência artificial entram no planejamento
A busca por eficiência também passa pela tecnologia. O Grupo Conduzir está desenvolvendo ferramentas digitais e soluções de inteligência artificial para apoiar atividades como gestão de agendas, planejamento da capacidade de atendimento, documentação clínica e automação de tarefas administrativas.
A proposta é reduzir o tempo dedicado a atividades operacionais e ampliar a disponibilidade dos profissionais para as funções que exigem avaliação e intervenção especializadas. A iniciativa também prevê mecanismos de rastreabilidade e controle dos processos.
A adoção dessas soluções integra uma estratégia mais ampla de profissionalização da operação. Antes de definir investimentos e prioridades de expansão, a organização considera indicadores clínicos, operacionais e financeiros, além de pesquisas sobre a evolução dos diagnósticos de autismo, a distribuição regional da demanda e a oferta de serviços especializados.
A análise também contempla os desafios do sistema de saúde suplementar e as necessidades de pacientes, familiares, prestadores e operadoras.
“Impacto sem sustentabilidade dificilmente escala. Sustentabilidade sem impacto perde a razão de existir”, afirma.
Instituto Spectra amplia acesso ao atendimento
A atuação do grupo também inclui uma frente social. Criado em 2018, o Instituto Spectra é uma organização sem fins lucrativos que oferece atendimento gratuito ou subsidiado, orientação a famílias e capacitação profissional. Mais de 200 famílias já foram atendidas pela instituição, que mantém unidades em São Paulo e Campinas.
Enquanto o Grupo Conduzir concentra sua atuação na assistência e no desenvolvimento da operação, o instituto busca ampliar o acesso ao cuidado especializado por meio de projetos sociais, parcerias e iniciativas de formação.
A instituição também investe em pesquisa e desenvolvimento, com estudos e referências internacionais voltados à identificação de práticas, tecnologias e modelos de atendimento que possam contribuir para a assistência às pessoas autistas no Brasil.
Entre as iniciativas em andamento está o desenvolvimento de um protocolo de atendimento construído em colaboração com o Grupo Conduzir. O projeto pretende reunir evidências científicas, experiência clínica e inovação, com foco no desenvolvimento e na autonomia dos pacientes. Segundo a organização, a iniciativa ainda está em fase de desenvolvimento.
A proposta acompanha uma visão de cuidado que não se limita à primeira infância ou ao período imediatamente posterior ao diagnóstico, mas considera pessoas autistas de diferentes idades e necessidades.
Liderança feminina e governança
A experiência à frente das duas organizações também levou Renata Michel a ampliar sua atuação em estratégia e governança. A executiva pretende contribuir com outras organizações dos setores de saúde e impacto social, levando a experiência acumulada na gestão de serviços especializados.
Para ela, a discussão sobre liderança feminina precisa ir além da representatividade numérica e considerar o acesso efetivo às decisões estratégicas, às oportunidades de desenvolvimento e às posições de poder.
“Não acredito que seja apenas uma questão de preparar mulheres. Existem muitas mulheres preparadas. Precisamos discutir quem recebe oportunidades, quem é patrocinado internamente, quem ganha exposição a decisões estratégicas e quem é considerado para posições de poder”, afirma.
No Grupo Conduzir, a prioridade segue sendo consolidar processos, aprimorar a eficiência e acompanhar os resultados antes de acelerar a expansão. O objetivo é estruturar um modelo de gestão que concilie qualidade assistencial, equilíbrio financeiro e impacto social.
“Nosso foco hoje não é simplesmente crescer. É crescer com disciplina, governança, transparência e capacidade de execução”, diz Michel.
A executiva resume a ambição do projeto na possibilidade de desenvolver organizações brasileiras de saúde que combinem rigor científico, gestão profissional, sustentabilidade financeira e relevância social.



