Pagamentos por check-in: por que a próxima revolução dos meios de pagamento será invisível

Por Juan Ferrés, fundador e sócio da Teros*

Silenciosamente, a forma como pagamos por bens e serviços está mudando. Motivado por consumidores pouco pacientes, decisões de compra mais voláteis, mais opções de pagamentos e fraudes crescentes, consumidores do mundo inteiro, tendo os brasileiros na vanguarda dessa experiência, estão se defrontando, crescentemente, com experiências de pagamento muito mais fluídas ou quase imperceptíveis.

Experiências mais fluídas, como os pagamentos por aproximação, instantâneos,carteiras digitais, ou com estruturas financeiras mais complexas, como parcelado lojista ou crediário loja, já estão consolidados no mercado brasileiro. De fato, hoje 74,8% dos pagamentos com cartões são feitos por aproximação, aqueles  instantâneos ( por PIX) já são maioria dos realizados no  varejo. Pouco mais de 50% das transações com cartões de crédito são feitas na modalidade parcelada, tornando o Brasil um exemplo inovador e muito avançado nessa adoção frente ao resto do mundo.

Todavia, esses resultados expressivos não são o fim da linha desse processo de mudança. Na verdade, essa revolução, que começou pela invenção da wallet de cartões, pela adoção de um sistema universal de pagamentos instantâneos e por uma cultura de crédito no varejo herdada do antigo cheque pré datado, respectivamente, apenas antecipam uma nova onda de inovações, impulsionada por um novo tripé de fatores.

A combinação de novas modalidades de pagamentos incorporadas ao PIX, consolidação do sistema financeiro aberto (conhecido aqui como Open Finance) no mercado financeiro e a adoção massiva da IA por pessoas e empresas estão viabilizando e obrigando a um novo salto qualitativo na forma de pagar, cuja principal característica é tornar o pagamento, seja para pessoas físicas ou jurídicas, quase imperceptível, invisível.

Pagamentos agênticos, cobranças com tokenização de colaterais, parcelamento ou diferimento garantido e pagamentos por check-in parecem ser as vedetes dessa nova onda. Todos esses produtos se caracterizam por modalidades de pagamentos cuja identificação das partes e relação de cobrança foi previamente avaliada por pagador e recebedor. Assim, ao invés de focar a segurança e complexidade no momento da transação, realiza-se esse processo de modo antecipado. E simplifica-se ou elimina-se por completo a etapa de autorização.

Isso já ocorre quando pegamos um carro por aplicativo ou alugamos um imóvel em uma plataforma de aluguéis por temporada. A novidade é poder levar isso para o mundo físico e para todos os meios de pagamento.

E na prática, significa a disseminação de três conceitos extraordinários que tornam os pagamentos quase invisíveis:

1 – Estabelecimento de relações de pagamento baseadas em confiança, como ocorre nos débitos automáticos e passam a estar disponíveis no pix automático;

2 – Estruturação de negócios e lojas sem espaços físicos para caixa ou checkout, mesmo self checkout;

3 – Delegação da função de pagamentos e controle de segurança a agentes de IA.

A tecnologia para viabilizar tecnicamente essas soluções já existe. O desafio das empresas hoje reside em combinar um processo de cadastro inteligente e, sobretudo, dinâmico, permitindo manter a relação de consumo em um contexto controlado atualizado temporalmente.

Por outro lado, esses formatos de pagamento trazem muito maior conveniência em ao menos três aspectos: fricção, em um contexto de consumidores impacientes e voláteis;  custos, na medida em que meios de pagamento mais baratos podem ser adotados; e, por fim, segurança, na medida que a disseminação de fraudes torna modelos de pagamento por senha ou mesmo autenticação visual progressivamente menos seguros com a disseminação da IA. Ou seja, gerou-se a combinação necessária de capacidade técnica e demanda para impulsionar essa onda no próximo biênio.

*Juan Ferrés é fundador e sócio da Teros, plataforma de hiperautomação inteligente para decisões financeiras. O executivo é mestre em economia pela USP e especialista em dinâmica competitiva, precificação estratégica e uso de dados em empresas do mundo real.

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