Com a globalização das operações corporativas, empresas precisam equilibrar eficiência operacional, compliance regulatório e novas dinâmicas do mercado financeiro internacional
A transformação digital do mercado financeiro tem acelerado a adoção de novas infraestruturas tecnológicas em operações internacionais, especialmente no ambiente corporativo. Entre janeiro e julho de 2025, as stablecoins movimentaram mais de US$ 4 trilhões globalmente, segundo levantamento da TRM Labs, reforçando o avanço de novos trilhos digitais de liquidação financeira no mercado global.
Para Felipe Sabino (foto em destaque), cofundador e CEO da Aurex, fintech AI-first especializada em infraestrutura de câmbio corporativo e pagamentos internacionais, o avanço dessas tecnologias está diretamente ligado à necessidade das empresas de modernizar os fluxos financeiros e ampliar a competitividade global.
“As empresas não estão buscando exposição a ativos digitais, mas sim operações internacionais mais eficientes. O uso de novas infraestruturas tecnológicas permite reduzir fricções históricas do mercado cross-border, trazendo mais velocidade, previsibilidade e eficiência operacional para pagamentos globais”, explica.
Segundo Sabino, o mercado vem passando por uma transformação estrutural na forma como os pagamentos internacionais são liquidados e processados globalmente.
Blockchain e novos trilhos digitais: mais eficiência operacional
Nos últimos anos, tecnologias baseadas em blockchain passaram a ser utilizadas como infraestrutura operacional em pagamentos internacionais, permitindo liquidações mais rápidas, redução de intermediários e maior eficiência em operações cross-border.
No modelo utilizado pela Aurex, as empresas continuam operando exclusivamente com moedas fiduciárias, como real, dólar ou euro. As tecnologias digitais são utilizadas apenas como infraestrutura de liquidação internacional, nos bastidores da operação, sem exposição direta do cliente a ativos digitais.
Na prática, isso permite que operações internacionais entre moedas fiduciárias sejam processadas com mais agilidade, previsibilidade e eficiência operacional em comparação aos modelos tradicionais de transferência internacional.
“As empresas continuam comprando e recebendo moedas fiduciárias normalmente. O diferencial está na infraestrutura utilizada para tornar a operação internacional mais eficiente, rápida e integrada globalmente”, afirma.
Criptomoedas seguem com perfil mais estratégico e alta volatilidade
As criptomoedas, por sua vez, possuem características diferentes. São ativos digitais descentralizados, baseados em blockchain e sem autoridade central emissora. Seu valor é determinado pelas condições de mercado e pode apresentar elevada volatilidade, o que limita seu uso em operações corporativas tradicionais.
Quando utilizadas por empresas, geralmente aparecem em estratégias específicas de alocação patrimonial e tesouraria, concentradas principalmente em Bitcoin e, em menor escala, Ethereum.
O modelo de “Bitcoin Treasury Company”, popularizado pela Strategy (ex-MicroStrategy) nos Estados Unidos, consiste na aquisição de Bitcoin como reserva estratégica de caixa de longo prazo. No Brasil, algumas companhias abertas passaram recentemente a adotar estruturas semelhantes.
“Esse é um modelo completamente diferente do uso de infraestrutura digital em pagamentos internacionais. Para empresas que precisam de previsibilidade operacional e eficiência no fluxo financeiro global, o foco está muito mais na modernização da infraestrutura de pagamentos do que na exposição à volatilidade de ativos digitais”, avalia Sabino.
CBDCs devem ampliar integração com o sistema financeiro tradicional
As chamadas CBDCs (Central Bank Digital Currencies) são versões digitais das moedas soberanas emitidas e reguladas pelos bancos centrais. Diferentemente das criptomoedas e das stablecoins privadas, operam dentro de estruturas regulatórias formais e buscam ampliar a eficiência do sistema financeiro tradicional.
Ainda em desenvolvimento em diversos países, essas moedas digitais devem ampliar a rastreabilidade, segurança e integração entre sistemas financeiros globais no longo prazo.
Para Sabino, o diferencial competitivo não está apenas na adoção dessas tecnologias, mas na capacidade de integrá-las estrategicamente à operação financeira das empresas.
“Mais do que aderir a uma tendência tecnológica, as empresas precisam avaliar como novas infraestruturas impactam gestão de caixa, exposição cambial, governança e compliance. O mercado está amadurecendo e as empresas que conseguirem estruturar esse uso de forma estratégica tendem a ganhar eficiência e competitividade nos próximos anos”, conclui.



