Pesquisa mostra que 70% das empresas que participam de licitações precisam de crédito imediato, esbarrando em juros altos, falta de produtos focados em B2G e exigência de garantias físicas
A falta de caixa é, atualmente, um dos principais motivos de fracasso para as empresas que participam de licitações no Brasil. Segundo levantamento feito pelo Portal de Compras Públicas, govtech especializada em marketplace de licitações, 70% das organizações que fornecem para o governo declaram que o crédito ou a antecipação de valores é uma necessidade imediata para conseguirem atuar.
O mercado de compras públicas representa cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, mas as organizações que fornecem para o governo frequentemente esbarram em gargalos financeiros. Com base na operação de dezenas de milhares de micro e pequenas empresas (MPEs) do setor, destacam-se três razões principais pelas quais o crédito convencional não funciona para esses fornecedores:
1- Custos imediatos versus longos ciclos de pagamento
Contratos públicos geram receita contabilizada, mas não produzem caixa imediato para as organizações. O fornecedor realiza a entrega do produto ou serviço e pode esperar de 90 a 150 dias para receber o pagamento efetivo da administração pública. Durante esse período de aproximadamente três meses, chamado de “vale de espera”, as PMES precisam cobrir, com recursos próprios, uma série de custos operacionais inevitáveis: frete para transporte dos materiais, insumos e matérias-primas necessários, folha de pagamento dos colaboradores que trabalharam no contrato, além de tributos federais, estaduais e municipais que incidem sobre a operação.
“O problema se agrava porque esse ciclo de pagamento é imprevisível: prazos podem ser estendidos por burocracia interna, falta de empenho orçamentário ou simples lentidão nos processos de liquidação e ordenação de pagamento. Nesse cenário, o crédito tradicional oferecido pelos bancos não se adapta à realidade do fornecedor: as linhas convencionais exigem análises longas, burocracia excessiva e, quando aprovadas, o dinheiro chega em semanas”, afirma Leonardo Ladeira, CEO e cofundador do Portal de Compras Públicas.
2- Linhas de crédito genéricas e caras
A falta de produtos financeiros desenhados para a lógica B2G (“Business-to-Government”) força os fornecedores a recorrerem a linhas de financiamento tradicionais, que são genéricas e extremamente caras. Essas não consideram as particularidades do mercado de contratos públicos: ciclos de pagamento longos, previsibilidade de recebimento (pois há um contrato assinado com o Estado) e baixo risco de inadimplência (o governo praticamente sempre paga).
Em licitações públicas, os fornecedores precisam apresentar preços competitivos para ganhar o contrato, o que naturalmente reduz a margem de lucro. “O problema se torna ainda maior quando comparado com outras modalidades de mercado: no B2B, as margens são maiores e os ciclos de pagamento mais curtos, permitindo que o crédito tradicional seja mais viável. No B2G, essa combinação de margens baixas, ciclos longos e crédito caro cria um cenário de inviabilidade econômica para muitos fornecedores, especialmente os pequenos e médios, que não têm caixa robusto para bancar essa operação do próprio bolso”, explica Leonardo.
3– A exigência de garantias físicas inadequadas
Os bancos tradicionais têm dificuldade em transformar os contratos públicos em ativos financeiros confiáveis para fins de financiamento. Essa limitação ocorre porque eles não estão familiarizados com a lógica do mercado B2G e não conseguem avaliar o risco real de um contrato com o Estado, que, na prática, apresenta baixo risco de inadimplência, pois o governo praticamente sempre paga, mesmo que demore.
Como resultado, exigem garantias clássicas e onerosas, como a alienação de veículos ou imóveis das empresas. Nessa modalidade, o fornecedor precisa transferir a propriedade de um bem como carro, caminhão, terreno ou prédio ao banco como garantia do crédito. Se não pagar, o banco toma o bem.
“Essa prática cria uma barreira de acesso significativa: o fornecedor precisa ter patrimônio robusto para conseguir financiamento, mesmo tendo um contrato público garantido. Pela nossa prática, observamos que o mercado de licitações é composto majoritariamente por micro e pequenas empresas que, por definição, não possuem esse lastro patrimonial significativo. MPEs frequentemente operam com patrimônio mínimo, focando recursos em operação e não em acumulação de bens”, alerta o executivo.
O resultado é um ciclo de exclusão: as MPEs, que são a maioria dos licitantes, não conseguem crédito para bancar o “vale de espera” dos contratos públicos; sem crédito, não conseguem cumprir contratos de maior porte; sem cumprir contratos, não acumulam patrimônio. “A exigência de garantia física é praticamente inexequível para estes negócios, pois não têm veículos de valor relevante além dos operacionais, nem imóveis próprios para alienar. Por isso, soluções que desburocratizam essa jornada têm ganhado destaque neste segmento”, conclui o executivo.



